sábado, 21 de julho de 2012

A sensatez paga-se cara

A azáfama das últimas horas tinha agora dado lugar a um tranquilo anoitecer e os ruídos de passos e conversas iam progressivamente desaparecendo, cedendo protagonismo aos ruídos nocturnos da montanha, a coberto de uma magnífica lua cheia que começava a desenhar-se por detrás de pinheiros e araucárias.
A conversa, cada vez mais pausada, ia sendo entrecortada por um turbilhão de pensamentos, tentando imaginar cenários e antecipar sensações. Sinto uma mão a pousar-me no ombro e, ao descrever um preguiçoso movimento de cabeça com o intuito de lhe associar um rosto, ouço a voz do Vítor Coelho: “Ó Meixedo, não achas melhor ires descansar? Olha que aquilo amanhã não é para meninos”
Sorri-lhe, emborquei de um trago o que me restava da cerveja, e com um indolente abanar de cabeça assenti. Despedi-me do meu amigo Armandino e, sem grande convicção, iniciei a dezena de passos que me separava daquele que por uma noite iria ser o meu leito.

Do meio do nada surge um veículo todo-o-terreno, pára a sua marcha e fica envolto na nuvem de pó que ele mesmo havia acabado de levantar. Uma buzinadela, duas, e um grito que vem do seu interior: ACABOU!
Viro-me instintivamente na direcção no meu companheiro de jornada, não sem antes apagar a luz do frontal para não lhe ferir a visão, e tento nos seus olhos perceber alguma reacção. O Rui olha-me com uma expressão que adivinho idêntica à minha, igualmente procurando desvendar os meus sentimentos.
Somos interrompidos por novo grito vindo do interior: ACABOU! ESTÁ NEVOEIRO NA MIZARELA! Encolhemos os ombros, entramos na viatura e antes que pudesse pôr o cinto já estava parado no abastecimento dos 60km. “Querem ou não?”, perguntava o Moutinho. Mas eu não sabia o que responder pois nem tinha ouvido a parte inicial da questão: nos últimos minutos encontrava-me absorto a rever, numa rápida sucessão de imagens, as quinze horas de aventuras que acabavam de ser abruptamente interrompidas.



Tinha sido acordado por grossas bátegas de chuva às 4 da manhã e, após identificada a origem do ruído e de ter respondido a um arrepio com um segundo saco-cama, voltei a embrenha-me no sono, até ser interrompido pelo despertador às sete da manhã. A prova teria início às oito pelo que, instalado literalmente em cima da linha de partida e sabedor de que o secretariado abriria às seis, tinha a certeza de que acordaria com o habitual rebuliço que se erigiria à minha volta. Não poderia estar mais errado; o povo da montanha é sereno e ninguém me tinha acordado.

Arrasto-me para fora dos sacos-cama e salto para a chuva, uma rápida visita ao quarto de banho, um café e lá vou deglutindo o pequeno-almoço enquanto me vou equipando e vou cumprimentando atarefados companheiros que se espantam com a minha aparente calma, ainda em cuecas em plena linha de partida.
Caras conhecidas, abraços, fotos, tensão e alegria, muita alegria e a certeza de que não passava de um atrevido no meio desta casta muito especial de atletas. Ainda esfrego os olhos enquanto vou trocando impressões com o Rui literalmente na cauda do pelotão quando é dado o tiro de partida.

Arrancamos serra acima. A chuva desapareceu. Vou entretido a experimentar os bastões e a conversar com amigos, conhecidos e desconhecidos. O tempo passa. Fila indiana. Agora vamos serra abaixo.
Passamos alguns companheiros. Discutimos política. Já não somos os últimos. Corremos nas descidas e caminhamos nas subidas. O plano não existe. Nem no que diz respeito ao terreno nem no que diz respeito a estratégia. Abrimos o peito, enchemos pulmões.
Atravessamos uma galeria de uma antiga mina de volfrâmio, memória de que estes maciços já testemunharam azáfamas contrastantes com a vida pacata que por aqui hoje se vive. À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o Norte de Portugal, também a Freita acolheu uma efémera porém marcante experiência de exploração mineira, quando, nos alvores da segunda grande guerra, com a ilusão do lucro fácil e rápido, de muitas paragens demandaram a estas terras pesquisadores e aventureiros esventrando o solo um pouco por todo o lado, na esperança de encontrar volfrâmio que, por se tratar de um minério fundamental ao fabrico de armamento, assume um papel determinante ao esforço de guerra, atingindo nesse contexto cotações excepcionais.
Toda esta euforia não significou, porém, progresso porquanto não houve investimento. Pelo contrário, com o fim da guerra e a descida na cotação do volfrâmio, este deixou de ter interesse económico e os terrenos voltaram à sua função agrícola. Proprietários de estabelecimentos comerciais com os seus livros de débitos repletos viram-se na ruína e a década que se seguiu foi para todos muito penosa. Foi como o abrupto acordar de um conto de fadas e subsequente mergulho num pesadelo.
Também acordávamos das nossas reflexões de cada vez que um de nós escorregava e se estatelava com maior ou menor estrondo. Descemos vales. Subimos ravinas. Caminhamos em leitos de rios e mudamos incessantemente de margem. Enchemos cantis na mesma água onde mergulhávamos as pernas. E usufruíamos, desfrutávamos daquela que estava a ser uma aventura sem par. Por vezes escorregávamos. Blasfemávamos. Nos abastecimentos íamos encontrando cada vez mais companheiros encostados. Respeitávamos cada vez mais a serra. Tivemos calor. Tivemos frio. Vimos cair a noite.

– Então?!?
– Então o quê, Moutinho?
– Comemos aqui uma bifana e uma canja e mandamos abaixo uma mini?
– Já podias ter perguntado há mais tempo!
Sentado, de prato na mão, continuava a ver passar-me diante dos olhos uma sucessão interminável de imagens desordenadas. Montanhas, vales, rochas, rio, cabras, árvores, luz, muita luz, breu, penedos, vacas, mais água, subidas intermináveis, trilhos, musgo e verde, muito verde. Subitamente, um arrepio, de frio e de emoção. O murmúrio de vozes à minha volta parecia distante e não conseguia arrancar-me a esta confusão de sentimentos com que de momento me debatia.
Acabara abruptamente, e de uma forma que não tinha imaginado, a minha mais marcante experiência de montanha, feita na companhia perfeita do Rui. O resto já está contado por muita gente.

15 comentários:

Rui Pinho disse...

Excelente, como sempre. Tens uma habilidade para transformar uma qualquer epopeia num conto fantástico. Aquele abraço!

João Paulo Meixedo disse...

"Obrigado, igualmente", é a única possível resposta sincera :)

Jose Moutinho disse...

Descreves muito bem na tua linguagem como é a Freita.
Sim, valeu bem aqueles momentos com todos os herois que na Lomba fomos comer aquela Bifanas e as minis.
Um grande abraço
Jose Moutinho

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado pelas tuas palavras Grão Mestre :)

Unknown disse...

Gostei imenso deste relato! Um pouco diferente do habitual, mas igualmente de uma enorme riqueza literária.
Forte abraço.

Unknown disse...

O comentário anterior foi meu!

Unknown disse...

Isto não está fácil.
Marco Silva

Unknown disse...

Isto não está fácil.
Marco Silva

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado Marco, até ficaste gago :)

Vitor Dias disse...

Cara amigo

Sublime como sempre. Não é fácil comentar tão ricas e entrelaçadas palavras.

Não foi minimamente fastidioso, antes pelo contrário, queria ler mais. Felizmente que por outras palavras já me contas-te esta tua aventura.

Continua a correr e a escrever. Se o Crato te proibir de venderes conhecimento, nunca poderá fazer com que não corras e muito menos escrevas.

Uma vez mais os meus sinceros parabéns pela prova e pela prosa.

Abc

Vitor Dias

Luis Rodrigues disse...

Estás um poeta companheiro!

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado pelas vossas palavras, amigos Vitor e Luis. A Freita é que é poética.

joaquim adelino disse...

Andámos um pouco a jogar ao gato e ao rato, adiantei-me quase sem dar conta e estava longe de pensar que ainda lá vinhas, a minha frustação aconteceu aos 65 kms, também por ordem directa do Moutinho, ainda insisti para proseguir mas ele foi inflexível. Também fez bem interromper a vossa marcha na Lomba pois quando cheguei ao Planalto 3kms depois já o nevoeiro tomara conta daquilo e assustei-me pois estava sozinho e não via nada em redor para além de 5 a 10 metros. Mesmo assim foram uns felizardos, o banquete que vos serviram na Lomba compensou um pouco a magreza do jantar fornecido à nossa chegada. Abraço e a ver se para a próxima temos mais sorte.

João Paulo Meixedo disse...

Desencontros, amigo Joaquim Adelino.
Abração.

Erwin Rudolf J. A. Schrodinger disse...

Olá,
João Paulo
Preciso de colocar uma dúvida
e penso que o amigo poderá ser-me
verdadeiramente útil.
Peço a gentileza de dizer-me qual email devo utilizar para contactar-te.