domingo, 12 de junho de 2011

Uma pipa que não cheirava mal dos pés

- Aiii!

O pé direito deslizou ao longo da laje, fiz rotação ao corpo para tentar o equilíbrio e ainda fui amparado por um companheiro que vinha colado a mim, mas o joelho direito bateu forte no granito.

É continuar enquanto ainda está quente, mas com cautelas. Recomponho-me com a ajuda do Vitor, escalo mais esta parede deste por ora seco leito de um jovem curso de água que não teve ainda tempo de erodir os infindáveis e pontiagudos pedregulhos que preenchem toda a sua base. Dou um passo e o GPS apita mais um km – o mais lento de toda a minha vida, em torno dos 18minutos.

Bem sei que nele está incluída a paragem no segundo e último abastecimento (o único com sólidos), onde paramos um bom bocado pois tínhamos acabado de descer uma prolongada ravina xistenta, que tinha sido antecedida por um estreito e infindável trilho camuflado no meio de urze, giestas e penedos graníticos, o qual tinha sido precedido por uma interminável escalada ao longo de uma encosta pedregosa, árida e nua como uma careca, que por sua vez se nos tinha apresentado como contraponto a uma descida alucinante por um carreiro de terrarossa atapetado por inúmeros fragmentos calcários levemente pousados – autênticas armadilhas aguardando por um pé mais confiante.

A progressão mantinha-se lenta mas confiante, sempre atentos aos pontos conspícuos, agora que a prova já ia com 17 ou 18kms e não víamos nem ouvíamos vivalma. Enquanto fomos tendo companhia de outros atletas o padrão foi-se mantendo constante: ganhando algum terreno nas subidas, fugindo por completo nos poucos e curtos estradões e sendo ultrapassados nas descidas por um número de atletas directamente proporcional à perigosidade das mesmas.

A prova aproximava-se do final. Havíamos finalmente deixado para trás o rio de água em pó e seguíamos agora por um estreito e pedregoso carreiro já nas fraldas da serra e que haveria de nos conduzir a um último km de alcatrão que nos vomitaria dentro de Alvaiázere.

Chegados à estrada podemos por fim fazer aquilo que sabemos e há muito ansiávamos: alargar a passada. Após tantos kms detectamos finalmente um atleta ao longe e fomos no seu encalço. Passamos um, dois, três, quatro, cinco atletas e vimo-nos em frente ao pórtico que atravessamos confiantes, abraçados e de sorriso nos lábios.

Tínhamos acabado cumprir 21kms na nossa estreia na montanha, numa prova que ultrapassou em pouco as três horas. Estávamos satisfeitos e orgulhos por termos dado os primeiros passos que nos levarão um dia destes a ter o direito de reclamar fazer parte dessa casta de atletas.

Desligamos os frontais e encaminhamo-nos tranquilamente para a mesa de abastecimentos.

É que me tinha esquecido de dizer que a prova foi nocturna.


















Na foto, os outros dois grandes companheiros de viagem: os amigos Carlos Rocha e Joana Leite.

Quanto à pipa que não cheirava mal dos pés, é uma private joke, e ficou ali só para vos despertar a curiosidade e vos obrigar a ler a crónica até ao fim.

20 comentários:

Fernando Andrade. disse...

É sempre um prazer ler as suas crónicas amigo Meixedo, mesmo sem o truque das "private jokes". As provas nocturnas, no descampado, têm um encanto especial. Só conheço a de Óbidos, que espero voltar a fazer já em Agosto, e que é verdadeiramente aliciante.
Grande abraço.

Erwin Rudolf J. A. Schrodinger disse...

A energia e o entusiasmo expressos na descrição e performance da prova são evidência de que pelo caminho passou-se um tempo que abranje mais de 3 horas. ;)
Hasta JP

João Paulo Meixedo disse...

É sempre bom receber um elogio, amigo Fernando; mas quando vem de um mestre a satisfação é redobrada.
Espero poder experimentar Óbidos já na próxima edição.
Um grande abraço

João Paulo Meixedo disse...

É verdade, Erwin, e também é verdade que a observação é feita por alguém que já me vai conhecendo bem.
Hasta.

Vitor Dias disse...

Fantástica descrição. Poética e digna apenas de quem a viveu e tem o conhecimento académico de cada pedra que pisou ou tentou pisar. Sou eu o privilegiado quanto à private joke :-) Só faltou mesmo dizer que trilho técnico é a forma erudita de dizer caminho fdp :-) Na próxima lá estaremos. Freita? Vitor Dias

João Paulo Meixedo disse...

Freita será! ... mas a curta ... por ora ...

Anónimo disse...

Óptima descrição de uma corrida num sábado... À noite com o frontal na cabeça e no meio da serra.
Obrigada mais uma vez.
Bj
Joana Leite

Fazer Amigos a Correr disse...

Eheheh!!!
Parecem uns mineiros!!!
Companheiros, muitos parabéns por se terem "aventurado" nestas maluqueiras! Eu sabia que vocês iam gostar! Espero ver-vos na Freita, eu vou fazer os 70kms, por isso têm que esperar por mim...!!!
Abraço

BritoRunner disse...

Parabéns pela estreia nos trilhos e claro pelo relato.

Até Óbidos se não for antes na Reixida ou Almonda.

João Paulo Meixedo disse...

Ainda bem que apreciaste a companhia, Joana; a Freita aguarda por nós.

João Paulo Meixedo disse...

Pois, eu mineiro já era mesmo antes de partir, Paulo :)
Claro que estaremos na Freita, a curtinha, e no fim para te bater palmas.
Aquele abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Para já será a Freita Curta, amigo Brito. Foi pena vocês terem chegado tão em cima da hora. Para a próxima tem que ir connosco às bifanas, que foi o nosso repasto antes da prova.
Abraçôm.

Mark Velhote disse...

Orientação, corrida de montanha, o que se seguirá?
Asa Delta?
LOL!

Na próxima alinho convosco se esta maleita que m´atormenta o permitir!

Abraço

luis mota disse...

Amigo Jo(Le)ão
Foi correr quase na minha porta (moro a cerca de 25 km). Costumo treinar ciclismo nessa zona, no Verão é mesmo a minha zona de eleição. Mas este fim-de-semana fui correr a Sesimbra.
Ainda não tive possibilidades de correr no AX Trail, mas sei que é um circuito bastante conceituado. Parabéns pela vossa participação.
Grande abraço

João Paulo Meixedo disse...

Nã, Mark, aluado mas com os pés bem assentes na terra :)
Qual maleita?
Abraço

João Paulo Meixedo disse...

Eu sei que foste correr a Sesimbra, Luis, e vi-te, uma vez mais, em cima do pódio. Não comentei porque já estou sem palavras :)
Não sabia era que moravas perto. Em Outubro estamos a ponderar ir à Lousã para mais um AXTrail. É dia 8 e há 21km para nós e 42 para os experimentados.
Que tal encontrarmo-nos lá para uma patuscada?
Abraço

luis mota disse...

Infelizmente o K42 é na altura da Maratona do Algarve. Mas até Outubro sempre poderemos combinar um treino na região.
Luís mota

António Almeida disse...

Grande Meixedo
por fim rendido ao encanto dos trilhos, não duvido da beleza desses, sou fã pese o facto de kota que já sou por vezes joelhos e articulações reclamarem um pouco.
Quanto às descidas não estás só...
Abraço e até um dia destes num trilho por aí.

João Paulo Meixedo disse...

Pois, Luis, é no mesmo dia.
Mas haveremos de nos deslocar aí mais para baixo para uma prova ou um treino.
Um abraço

João Paulo Meixedo disse...

Espero bem quenos possamos encontrar, amigo António. Quanto à "cotisse", eu era dos mais novos por lá (pelo menos quero acreditar nisso ah ah ah).
Vai haver uma no Minho.
Eu dou notícias.
Aquele abraço.