terça-feira, 13 de abril de 2010

Solidão no meio de 40.000

Há milagres. Qualquer bípede pode concluir uma maratona.

Noite mal dormida. Despertar às 6:00.

Pequeno-almoço com o Mark e partida para o Arco do Triunfo.

Luís Mota de grilo. Fomos aos sacos.

Stress. Frio. Vai doer? Vou aguentar?

Último abraço. Eu: “ – vai forte!”; ele: “ – vai com calma”. Nenhum de nós proferiu as palavras ao acaso. Ao Mark, com um registo de 3:00:02, faltavam-lhe uns segundos para entrar na hora dois; eu, com treinos morrinhentos e uma lesão a atormentar-me, só queria terminar e, de preferência, abaixo das quatro horas. Se não vos apetecer ler mais adianto-vos já que ambos conseguimos, à tangente, os nossos intuitos.

Emoção contida.

Poupo-vos àquilo que todos vocês conhecem: o frio, a solidão, o nervosismo, a dúvida e, pela primeira vez numa situação deste tipo, a vida extra-atletismo a passar-me insistentemente pela cabeça, a estacionar na minha cabeça.

O tiro. Nada acontece.

Uns passos. O chão repleto de lixo.

Que faço eu aqui?

Mais uns passos.

8 minutos passados e lá está a linha de partida.

Começo a correr. Uma perna à frente da outra. Não me consigo decidir por um ritmo. Vou muito rápido. Agora muito lento. Que faço eu aqui?

Passa o primeiro quilómetro: 5:18. Não consigo decidir se é lento ou rápido. Deixo-me ir na corrente. Segundo quilómetro a 5:20. Vejo uma bandeira nacional e grito Portugal! “ – Força Meixedo!”. Era a Susan, esposa do Luís Mota.

Lá vou indo entre os 5:00 e os 5:10, até que no quilómetro 9 não aguento mais e tenho que procurar um local discreto para mudar a água às azeitonas. Arranco e esse quilómetro bate a 5:30. Decido recuperar o tempo perdido, mas não chego a fazer 200 metros sem que sinta uma forte picada no tendão, e a perna a prender. Grito um palavrão com todas as forças que tenho. Lágrimas.

Que faço eu aqui?

Páro. Lágrimas.

Arranco lentamente e esse quilometro ainda bate a 4:40. Nem imagino a que ritmo ia quando senti a picada.

Dói mas aguento. Aguento até ao final dos 43.240metros, porque ela nunca mais me abandona.

Estabilizo e entre os km 10 e 26 rolo entre os 5:05 e os 5:10. Sofro mas estou satisfeito.

Por volta do quilómetro 27 sinto repentinamente que as pernas têm vontade própria e que correr não está nos seus planos.

É uma situação nova, para mim, que sempre parei ou abrandei por falta de fôlego, seja lá isso o que for. Desta vez não é o pulmão. Não é o coração. Não me sinto esgotado, mas as pernas não correspondem.

Nos 10 quilómetros seguintes vejo-me aflito para rolar abaixo dos 5:40 e chego mesmo a registar dois quilómetros acima dos 5:50.

QUE FAÇO EU AQUI?!

A partir do quilómetro 37 consigo impor-me às minhas pernas e rolei sempre em torno dos 5:25.

O meu habitual sprint final limitou-se a uns meros 200m, tendo terminado com 3:50:27.

Para meu desespero fiz 43240m, a um ritmo médio de 5:19. Com esse ritmo, em 42195m deveria ter registado um tempo de 3h44min. Mas isso é o condicional e como todos sabemos, se a minha vizinha de baixo tivesse rodas seria um camião TIR.

Terminei, mas com o meu pior tempo de sempre. Sem treino não há milagres. Continuo ateu.

40 comentários:

Rui Pena disse...

De certeza que não é qualquer um que faz o que aqui relataste.

Abraço, recupera bem... e obrigado por partilhares isto connosco.


Rui

António Almeida disse...

Companheiro
acima de tudo parabéns por mais uma maratona e por este excelente post.
Recupera bem, grande abraço.

Vitor Veloso disse...

Olá Meixedo,
Que excelente relato, os meus parabéns por mais uma Maratona terminada.
felicito pela coragem e determinação apesar das circunstancias ocorridas, rápidas melhoras.
Boa semana
Grande abraço
Vitor Veloso

NS disse...

Caro Meixedo,

Sois grande!

NS

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado mas é a ti, Rui, pelas tuas palavras. Não se trata de um drama, mas sim de uma comemoração de vitória.
Um abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado, amigo António; é isso mesmo: esta já ninguém ma tira, e às férias também não ;)
Grande abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado pelas palavras, Vitor; a recuperação vai ser ao ritmo que tiver que ser, e treino, por agora fica reservado, como dizem as cozinheiras.
Um abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Caro Sebastião: não fiz nada do outro mundo; a escrita é que está mais piegas porque a fase da vida também.
De qualquer das formas, muito obrigado.
Um abraço.

José Alberto disse...

Olá João,

A vida como ela é... às vezes mais sofrida, outras com mais alegria.

Assim como venceu a maratona há-de vencer outros desafios.

Parabéns.

Acima de tudo que tenha uma boa e rápida recuperação.

Grande abraço

José Alberto

Vitor Dias disse...

Caro amigo

Durante o treino de domingo falamos várias vezes em ti. Quando cheguei a casa fui logo ver à net e fiquei satisfeitissimo por saber que terminas-te e abaixo das 4 horas como querias. É disto que o atleta de pelotão gosta. De gente com garra, que enfrenta as adversidades. Agora é recuperar porque daqui a uns dias quero-te a rolar connosco novamente.

1 abc

Vitor Dias

LuisCosta disse...

Olá,

Que relato - impressionante!
Os meus parabéns Meixedo!!!

Grande abraço
Luis Costa

MPaiva disse...

Caro João,

A conclusão que tiro do teu relato é que correr uma maratona sem ter uma lebre para os primeiros 30 km é muito complicado!

Apesar dessa tremenda falha, estás de parabéns, pois conseguiste alcançar o objectivo que tinhas colocado à partida, mostrando-te melhor (e a nós também) até onde te pode levar a tua determinação.

abraço
MPaiva

luis mota disse...

Olá João!

Objectivo alcançado com determinação.
Depois da lesão foi o treino possível mas suficiente para terminar mais uma Maratona.
Agora é recuperar e voltar para a estrada, uma vez que outros desafios estarão no horizonte.
Apesar de ter sido o tempo menos conseguido, dadas as adversidades, foi a tua melhor superação, isso é o que o grande João tem em mente, a força do Maratonista!
Uma grande semana para ti e vamos é começar a pensar na próxima para Outubro.
Uma grande semana,
Luís Mota

Anónimo disse...

Parabéns pela prova, os tempos não são tudo, existem muitos atletas que não têm coragem de se aventurar numa maratona e quebram com as adversidades, o grande Fernando Mamede foi um bom exemplo disso. .
A vida é como uma maratona é um desafio longo com coisas boas e más. O importante é superá-las a todas da melhor forma, e para mim uma das melhores qualidades das pessoas, atletas ou não , é a força mental e adeterminação .

cumprimentos
Nelson

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado, José Alberto; só espero ter companhia na próxima.
Abraço e boa recuperação.

João Paulo Meixedo disse...

Deixas-me sensibilizado, Vitor.
Não que esteja à espera de outra coisa de um amigo :)
Regressarei seguramente, porque preciso; mais emocionalmente do que fisicamente.
Aquele abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado, Luis Costa.
Que é feito?
Abraço.

João Paulo Meixedo disse...

he he, tu é que te baldaste, Miguel.
Conto contigo na próxima.
Abração.

João Paulo Meixedo disse...

Tu é que estás em grande, Luis.
Quando te referes a Outubro não sei exactamente a que te queres referir, mas eu cá vou tomar como certo de que me estás a desafiar para irmos a Amsterdão ... ;)
Aquele abraço

João Paulo Meixedo disse...

É verdade, Nelson; havendo resistência física e mental a coisa compõe-se.
Um abraço.

joaquim adelino disse...

Amigo João, melhor a história do que a tragédia e no final acabou por ter tido a merecida recompensa, acabar, sabe-se lá como mas atravessar aquele risco final faz esquecer por momentos todas as tormentas, é assim a fibra dos valentes e dos resistentes.
Envio um forte abraço.

Katryny disse...

Parabéns por mais uma maratona!
Ainda sonho com a minha primeira em julho e ler a descrição desta foi muito importante para mim.
Abraços

futuramaratonista.blogspot.com

João Paulo Meixedo disse...

é verdade, amigo Joaquim; a satisfação é grande e partilhável com muito poucos. Mesmo os mais próximos não se dão conta do mérito. Felizmente vou conhecendo cada vez mais gente que sente como eu.
Aquele abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Pois espero que o meu post não tenha o efeito contrário, Katryny :)
É que é suposto tirar-se prazer da corrida.
Até breve.

Joaquim Ferreira disse...

Olá João Paulo!

Primeiro que tudo, PARABÉNS!

"Noite mal dormida" ... pois .... em Paris ..., pois ... , o Ateísmo vai mesmo vencer a Prova! :-))

IMPORTANTE - MUITO IMPORTANTE - MESMO MUITO IMPORTANTE

" O João Paulo Meixedo" terminou a MARATONA DE PARIS 2010 ! "

Isso sim, é uma grande Vitória!

Mais uma vez, parabéns!

PS. - Gostei sobremaneira "daquela" da vizinha de baixo! :-))

LuisCosta disse...

Vou indo por cá!!
Uns Kms hoje, mais uns depois de amanhã! Com Calma, pra chegar ao fim, sempre:)

Não tem dado pra muito mais...
Meia de Cortegaça a próxima!

Abraço
Luis Costa

Corridas e Maratonas disse...

Muito bom!!! Sua escrita, o movimento das palavras, o ritmo variável, a constância do continuar, para onde? que marca é essa??

Dores, pensamentos, e la´vai, a batida em cada km. Parabéns,
site indicado pelo Mark, valeu mesmo, daqui a pouco farei a minha maratona tb e com certeza lembrarei desse relato. Abraços, pri

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado, Joaquim Ferreira, vocês ainda me vão acabar por convencer de que eu fiz algo de extraordinário.
Estava mesmo a precisar de amigos assim.
Um abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Meia de Cortegaça, Luis? Sou gajo pra ir lá meter nojo.
Abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Obrigado, Pri.
São, de facto, palavras elogiosas.
Vocês estão a fazer-me mal.
Não passo de um aprendiz de feiticeiro.
Volte sempre.

Mark Velhote disse...

Viva João,

Este relato arrepiou-me (no bom sentido é claro).
Obrigado por este post sentido e muito obrigado por me mencionares nele. Foi um prazer ter partilhado contigo esta aventura e vamos lá ver se conseguimos vaga na Maratona da Geórgia. Essa é que era! :D

Grande abraço
Mark

Anónimo disse...

bom dia joao

Tas um monstro vê la tu que n contente em fazer maratonas em 3h30m, decidiste fazer mais dificil ainda que é tentar estar 4 horas a correr muito bom... agora a sério desistir na faz parte da tua área curricular e pelo que contas foi mesmo dureza grande abraço para ti e para a tua familia

paulo martins
leoes de kantaoui

ps: ja agora se fores ao encontro então vou pensar nisso tb

João Paulo Meixedo disse...

A amizade não se agradece, Mark.
Foi um prazer ter partilhado contigo alguns bons momentos em Paris.
Foi importante verificar que as nossas famílias encaixaram bem.
Um grande abraço.

João Paulo Meixedo disse...

Um grande abraço também para ti e família, Paulo.
É garantido que vou ao III Encontro Blogger e espero ver-te por lá. Conto com isso.
Um abraço.

Fazer Amigos a Correr disse...

Olá João, que rima com campeão!!!
Cada vez te revelas mais como um grande campeão e a tua capacidade de sacrifício é impressionante.
Nas condições em que treinaste e em que foste,eu não sei se a faria...!

Grande abraço
Paulo Rodrigues

João Paulo Meixedo disse...

Não fazias não, Paulo; só quem não te conhecer!
Nem quero imaginar o que seja correr 100kms, como já fizeste e te preparas para repetir muito em breve.
Um grande abraço.

José Capela disse...

Caro, João!

Antes de mais, excelente post!

Na verdade o ser humano faz coisas misteriosas!
Confessas-te ateu, mas há em ti algo se sobrenatural!
Depois de uma lesão e com escassos treinos aventurar-se na maratona, não é coisa ao alcance de todos!

Grande João!

Abraço,
José Capela

Seu_Misha disse...

Tou a ver que esta coisa da maratona é coisa de mansos ... Prá próxima também vou ... lollll.

Parabéns por teres terminado e ainda bem que não pioras-te a lesão

aquele abraço

João Paulo Meixedo disse...

Grande és tu, Capela.
Estou maravilhado, como dizia o outro, com o teu desempenho em Roterdão.
Um abraço.

João Paulo Meixedo disse...

eh eh, tkz, Seu Misha.
Traz a tia :)
Aquele abraço.