domingo, 16 de junho de 2013

Sentir a Freita

















Com os meus amigos Rui Pinho e Carlos Natividade fiz ontem uma incursão de cerca de 8 horas na Serra Freita, naquele que pretendemos que fosse um treino preparatório para a grande aventura de 70km à qual nos lançaremos dentro de duas semanas.
De Candal a Gourim, passando por Covelo de Paivô e pelos coutos mineiros de Regoufe e de Drave, regressando por Póvoa das Leiras, foram mais de 40km, com um desnível positivo acumulado superior a 2000m que, por trilhos outrora calcorreados por gentes ligadas à efémera febre pesquisadora do volfrâmio, naquele que foi um dos nossos micro Klondike, nos transportaram para tempos em que a vida era de uma dureza brutal mas que a ilusão de um certo ouro negro permitiu o atrevimento do sonho.
À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o Norte de Portugal, também a Freita acolheu uma efémera porém marcante experiência de exploração mineira quando, nos alvores da segunda grande guerra, um punhado de gente se deu conta de que por contraste com a fraca fertilidade destas abruptas encostas rochosas havia uma riqueza que poderia ser extraída do seu substrato.

Com a ilusão do lucro fácil e rápido, igualmente de outras paragens demandaram a estas terras pesquisadores e aventureiros esventrando o solo um pouco por todo o lado, na esperança de encontrar volfrâmio que, por se tratar de um minério fundamental ao fabrico de armamento, assume um papel determinante ao esforço de guerra, atingindo nesse contexto cotações excepcionais.

No caso particular da Serra da Freita, enquanto que os ingleses iniciaram a sua exploração mineira em Regoufe, os seus beligerantes inimigos instalaram-se em Rio de Frades, a pouco mais de uma dezena de quilómetros, mas viviam numa tal paz operacional que até lhes permitiu um entendimento com vista à divisão de esforços de construção de uma estrada que servia os propósitos destes dois supostos inimigos mas aliados no que ao lucro diz respeito.
Tratou-se de explorações subterrâneas de dimensão considerável, mas também pulularam um pouco por toda a serra outras de muito pequena dimensão, algumas delas mesmo furtivas ou ocasionais, que se ocupavam das jazidas mais pobres e superficiais.

Todo o material rochoso trazido à superfície era conduzido à lavaria onde era lavado em abundante água corrente, e posteriormente criteriosamente separado o minério da rocha sem valor, designada por ganga. Nas mesas de britagem, numa tarefa essencialmente ocupada por mulheres, o material era esmagado com pesadas marretas, promovendo-se assim nova separação de minério e ganga, procedendo-se seguidamente a nova escolha manual. O concentrado de minério no final obtido tinha uma granulometria muito fina, muito próxima do pó, e era armazenado em pequenos sacos de tecido.

O volfrâmio era escoado essencialmente através duma companhia instalada em Arouca, mas são inúmeros os relatos de histórias mais ou menos românticas de minério que saía da serra a coberto da noite, em direcção ao Porto e à Galiza, onde era vendido a preços bem mais apetecíveis.

A entrada desse ouro negro na vida de Arouca veio impulsionar o comércio, por via do súbito aparecimento de endinheirados “volframistas”, nome que albergava gentes tão distintas como sérios proprietários rurais agora convertidos à mineração, até “pilhas” (nome atribuído a aventureiros que se dedicavam ao roubo de minério em explorações alheias e posterior venda no mercado negro) e contrabandistas.

Apareceram novos estabelecimentos comerciais e passou a haver um permanente clima de festa, com as tascas a colocarem altifalantes à porta, onde vomitavam ininterruptamente música. Foi um tempo em que um povo com vidas miseráveis agarrou com ambas as mãos a ilusão da riqueza e que experimentou sensações nunca antes sonhadas, algumas tão aparentemente simples como comer até não ter fome. Sucediam-se episódios de volframistas que apesar de analfabetos exibiam elegantes canetas, que usavam relógio de bolso a par com mais um em cada pulso, que enrolavam tabaco em notas de mil escudos e que desafiavam a própria imaginação.

Toda esta euforia não significou, porém, progresso porquanto não houve investimento. Pelo contrário, com o fim da guerra e a descida na cotação do volfrâmio, este deixou de ter interesse económico e os terrenos voltaram à sua função agrícola. Proprietários de estabelecimentos comerciais com os seus livros de débitos repletos viram-se na ruína e a década que se seguiu foi para todos muito penosa. Foi como o abrupto acordar de um conto de fadas e subsequente mergulho num pesadelo.

segunda-feira, 4 de março de 2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

III Trilho dos Abutres – que faço eu aqui?

Ouço a lenha a crepitar e sinto o confortável calor emanado a curta distância, ainda assim baixo os olhos e confirmo que não tenho os pés mergulhados numa bacia com água. Levanto os olhos e concentro-me novamente no assunto em debate. De passagem deito um olhar ao chouriço que continua a assar demoradamente, indiferente ao que se passa à sua volta.
 
Acarinho cuidadosa e demoradamente o copo de maduro tinto com a calma e o zelo com que se embala um recém-nascido.
 
Não obstante a tertúlia ir correndo de forma prazenteira e interessante debato-me constantemente com a torrente de imagens que insiste em suceder-se abruptamente à frente dos meus olhos. Enquanto perscruto o horizonte em busca de uma fita branca quase embato com a cabeça num tronco que se atravessa ao nível dos olhos. Ouço o meu próprio ofegar, enfio os pés na lama. Olho para debaixo da mesa e confirmo que não os tenho enfiados numa bacia de água.
 
Desperto lentamente deste torpor. Ouço agora o Pedro Amorim que nos fala da Badwater, da Comrades, do Carlos Sá e do Aconcágua. Vejo as minhas mãos enlameadas enfiadas numa taça de batatas fritas, vejo o desespero da Célia Azenha ao descobrir a avaria no seu frontal. Subitamente, um arrepio, só pode ser de emoção.
 
Intervém agora o Jorge Serrazina, com aquele inconfundível sorriso que inspira a maior das calmas deste mundo, mas eu já não o ouço porque me passa agora diante dos olhos uma sucessão interminável de imagens desordenadas. Montanhas, vales, penedos, rio, árvores, luz, breu, mais penedos, mais água, subidas intermináveis, trilhos, musgo e verde, muito verde, e castanho, muito castanho.
 
Sobressalto-me com uma gargalhada colectiva que percebo remotamente ter sido provocada por um comentário jocoso do Vitor Dias. Volto a concentrar-me no presente e ouço a Susana descrever pormenores da maratona des Sables e das suas aventuras nos Pirenéus. Tento imaginar-me lá e logo sou transportado para Gondramaz. Vejo desfiar pelo meu cérebro uma sucessão interminável de fotogramas aparentemente sem sequência lógica: tão depressa estou a olhar para o chão e a ver as minhas sapatilhas enterradas na lama, como no momento seguinte alargo a vista ao horizonte e absorvo a magnífica envolvente da serra, que imediatamente é substituída por um tronco atravessado a 10 cm dos meus olhos (outra vez este tronco?!), trilhos, água, musgo, penedos, subidas intermináveis, mochilas, cabos, fitas brancas, árvores, descidas impossíveis, conversas, e rostos, muitos, uns conhecidos e outros que passaram a sê-lo.
 
Olho para debaixo da mesa e, não, não tenho os pés enfiados dentro de uma bacia de água. Levanto os olhos. A Glória Serrazina debate-se desesperadamente com Hipnos e Morfeu, que em conjunto a tentam convocar. O murmúrio de vozes à minha volta parece distante e não consegue arrancar-me a esta letargia.
 
De repente toda a gente se levanta. Olho para o relógio: uma da manhã. Mexo cerimoniosamente o corpo, dorido de um interminável esforço ininterrupto de mais de 10 horas. Levanto-me com cuidado para não entornar a bacia de água onde tenho mergulhados os pés. Entre abraços, agradecimentos aos inefáveis companheiros que desde há meses trabalham para que esta tenha sido para todos nós uma aventura inesquecível, promessas de regresso e de amizade eterna surge o Telmo com um cabaz repleto de fumeiros, broa e maduro da região. Afinal a festa prolongou-se até às 3 da matina, uma vez que não é possível prolonga-la até Janeiro de 2014.
 
Desta vez fico em pé; não quero arriscar a inadvertidamente enfiar os pés na tal bacia de água gelada.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ponta a ponta


Cerimoniosamente curvo-me para me descalçar, após o que me sento num rochedo e mergulho os pés no Atlântico. Só então lanço um último olhar ao gps, antes de o desligar e o retirar do pulso, não sem antes confirmar uma vez mais a extensão da aventura: 67km solitariamente percorridos ao longo de todo o dia, desde a Ponta dos Rosais até ao Topo.

São agora cinco da tarde e um turbilhão de imagens assalta-me a memória recente e passa à frente dos meus olhos, mesmo quando mergulho totalmente no Atlântico e me deixo arrastar pela ondulação.

Após umas braçadas indolentes regresso ao rochedo para o qual me ergo lentamente. Vou alongando os músculos enquanto aguardo que o sol do final da tarde me vá secando as carnes, antes de poder voltar a vestir-me.

Com o olhar fixo no horizonte vou fazendo o filme da aventura que agora termina e que na realidade começou com uma provocação lançada no bem regado jantar da véspera, na Casa da Ermida, um turismo de habitação na Ribeira do Nabo: “Então não eras tu o homem que queria percorrer a ilha de ponta a ponta? Já cá estamos há uma semana e ainda nem tiraste as sapatilhas do saco!”

Quando às 7 da manhã abro a porta de casa e me deparo com aquele céu pesado, com a nuvem quase a tocar-me na cabeça, de imediato me preparo para o arrepio, mas aguardo em vão. Não estou no Porto, mas sim nos Açores, onde a amplitude térmica é praticamente inexistente.

Em bicos de pés dirijo-me para a cozinha, onde aparece em seguida o meu irmão mais novo, que organiza um ligeiro briefing enquanto eu vou preparando um frugal pequeno-almoço. A sugestão do Jaime era simples mas pareceu-me eficaz: marcaríamos idênticos pontos numerados em dois mapas de estradas, e eu iria enviando periódicas mensagens de telemóvel informando a minha posição aproximada, ligando-lhe quando quisesse ser recolhido.

– Ó Jaime já chega, não marques mais pontos.

– Afinal quantos quilómetros pensas fazer?

– Depois da jantarada de ontem?! Sei lá … entre 10 e 30, mas marca lá os mapas até ao final, porque assim já fica para quando fizer a próxima etapa.

Domingo de manhã, numa ilha com dez mil habitantes somos os únicos na estrada. Ponta dos Rosais. O Faial ao longe. Um último abraço, desejos de boa sorte e lá parto por um estradão de terra, com os 1200ml de água a pesarem-me nos cantis e o impulso de despejar pelo menos metade. Em boa hora não o fiz.

A calma é total e a ilha parece totalmente inabitada, à excepção de algumas das trinta mil vacas com quem me vou cruzando. O verde domina, salpicado aqui e ali por sebes de hortênsias. Ao longe vejo o Pico. Faço alguns quilómetros em alcatrão. Ao fim do sexto, deixo de contar os coelhos atropelados.

Primeira fonte, primeira paragem, primeiro sms: “10:25. Ponto 9. 2:00h de treino. 16km. Tudo ok”. A água, por estas bandas, tem sempre uma cor estranha, pelo que opto por me refrescar, molhar o boné, mas beber apenas dos cantis, deixando a das fontes lá mais para diante, quando aqueles começarem a esvaziar. Mal eu sabia que esta seria a primeira e última fonte ao longo de 67km e mais de 9 horas de aventura.

Com o ânimo em alta, arranco para uma subida de cerca de 7km, feita maioritariamente a passo e a entrar progressivamente na nuvem. O mapa é fraquíssimo mas como tem os cumes (picos) assinalados permite-me optar por um caminho de terra que me parece ser a descer, o que se confirma. Faço quatro magníficos quilómetros por um estradão de terra que vai descaindo ligeiramente para o flanco norte e que me retira da nuvem e me devolve o sol. Vejo lá em baixo uma fajã e ao longe a Graciosa.

Termina a descida. Primeiro gel. Uns goles de água. Contidos, pois não voltei a avistar fontes desde a última paragem. Segundo sms: “12:00. Entre pontos 14 e 15. 3:30h de treino. 28km. Sinto-me bem. Vou continuar”

Consulto o mapa e resolvo arriscar por um local por onde não tem qualquer caminho assinalado. Saiu-me bem, há trilho. A topografia vai agora oscilando entre subidas e descidas, pelo que abrando o ritmo. Um coelho salta ao caminho e corre umas dezenas de metros à minha frente até desparecer num arbusto.

Começo a ficar com fome e sede. Consulto o mapa em busca de uma estrada. Opto por um caminho que me despejará no alcatrão à entrada de uma pequena povoação onde espero encontrar um café aberto.

Tal como previsto, abordo a estrada à entrada do Norte Pequeno. Estou numa povoação fantasma! Bem sei que é domingo e hora de almoço. Avisto um café. Fechado! Continuo em busca de um segundo, que não tarda em aparecer. Fechado! Nem vivalma. Um fila de S. Miguel olha-me do outro lado da estrada. Paro de correr e avanço cautelosamente. Tomo segundo gel, dou uns goles ainda mais contidos e preparo-me para enviar terceiro sms. Ao pegar no telemóvel apercebo-me de que o segundo nunca chegou a ser enviado.

Uma da tarde. 35 quilómetros percorridos. Sede e fome. Cafés fechados. Provisões: 400ml de água, duas embalagens de gel. Vou-me encaminhando para o final da povoação, com o telemóvel na mão, atento a uma eventual captação de rede, enquanto decido o que fazer.

Opto por seguir pela estrada, que haverá por me levar a outra povoação e até pode ser que pelo caminho encontre um café. Subo ligeiramente até à crista da ilha e começo a descer agora para a encosta sul. S. Jorge tem cerca de 55 quilómetros de extensão mas não tem mais do que 7 ou 8 de largura, pelo que não sendo possível percorrê-la sempre pela linha de cumeada passamos o tempo a oscilar entre as abruptas encostas norte e sul. Apanho rede. Numa ligação entrecortada e que caiu uma meia dúzia de vezes consigo confirmar que o Jaime percebeu as palavras “estou bem, vou até ao fim”. “Ok. Percebi. Força”, retorquiu. Não mais teria rede.

Agora desço a bom ritmo e ganho novo ânimo. Recupero forças. Avisto uma esplanada. Solto uma gargalhada e acelero ainda mais. Já sonho com esta paragem técnica. Terão sandes de presunto? Como um chocolate, bebo uma cola e compro uma garrafa de litro e meio de água, penso. FECHADO. REABRIMOS ÀS 14:30 …

O desalento é total. Grito quantos palavrões me vêem à cabeça. Insulto os açorianos. É 1:30h, pelo que até valeria a pena esperar uma hora, mas uma semana nesta ilha já deu para perceber o que vale o aviso: nada! Gente afável, acolhedora e simpática de quem é impossível não se gostar, mas trabalhar é uma outra história. Os subsídios vão dando para cerveja e cigarros e até para rações para o gado, como se a ilha não estivesse forrada a pasto!

A irritação dá-me para estugar a passada e continuo a descer. Descer de mais. Começo a ficar preocupado. Tudo o que desce tem que subir. Mais um aglomerado de casas. Nem vivalma. Hesito em bater a uma porta para pedir água. Decido fazê-lo na próxima casa.

Decisão errada. Não fazia ideia do que me esperava. Termina a descida e terminam as casas. Mais de 5 horas de esforço e começa a subida. O gps apita: 42 km. “Rica maratona”. Agora caminho, exausto. Alimento-me de amoras na beira da estrada. Menos de 200ml de água. Vou dando goles minúsculos. Continuo a subir. A pique. Uma fonte! Seca! Mais amoras. Entro na nuvem. O que me vale é a humidade que normalmente ronda os 95% e que contribui assim para a minha hidratação. Um regato de cor amarelada. Desço o barranco, descalço-me e mergulho as pernas. A cor e o cheiro da água desaconselham-me de aí molhar o boné.

De volta ao alcatrão, que jamais abandonaria, confirmo mais uma opção errada: optei por sapatilhas de trail, mas nas últimas 2 horas não havia saído da estrada e a previsão era a de que essa situação se mantivesse até ao final. Outra fonte seca. Faz sentido, estou na zona da Ribeira Seca! Poupo-vos ao meu desespero: 12 quilómetros a subir da cota 250 para a 750, dentro da nuvem, sem água e sem comida. Algures a meio da subida ingeri o 3º gel. De 10 em 10 minutos passa um carro com luzes de nevoeiro acesas.

O desnível começa a atenuar-se. Desarrolho um dos bidons para tentar escorrer algum vestígio de líquido que ainda por lá pudesse estar. Sento-me numa pedra com a cabeça entre os joelhos. Vêem-me as lágrimas aos olhos. Não há água, não há rede de telemóvel, mas agora só pode ser a descer e daqui a uns 3 ou 4 quilómetros há uma povoação.

Levanto-me resignado. Começa a descida. Corro. As pernas respondem e vou acelerando o ritmo. Ganho ânimo. Os minutos passam. Estive aqui há uns dias e sei que haverá casas mais tarde ou mais cedo. Foram 20 minutos feitos a um ritmo impensável, mas ao fim de 58 quilómetros e quase 8 horas de esforço vejo um oásis: uma casa. Bato. Cães ladram. Chamo. Cães ladram. Contorno a casa. Os cães estão presos. Encontro uma torneira. Não consigo esperar que o bidon esteja cheio. Num momento coloco-o debaixo da torneira e no momento seguinte já estou a verter pela garganta abaixo. Metade escorre-me pelo peito até aos pés. Acabou. Encho e volto a despejar pela garganta.

Encho ambos os bidons até cima. Ingiro o 4º gel e, com um sorriso de orelha a orelha ponho-me a caminho. Apesar de ainda me restar mais de uma hora de esforço, sei que a aventura está terminada e que chegarei ao extremo oriental da ilha nem que seja a rebolar. Percorro cerca de um quilómetro e, ironia do destino, deparo-me com um café aberto.

Entro e, de imediato, o enorme borburinho que se ouvia pára instantaneamente como se alguém houvesse carregado num interruptor mágico. Peço um chocolate, um pacote de batatas fritas e uma cerveja. Pago e saio para a esplanada. Um a um todos os ocupantes do café assomam à porta para tirar a pinta ao extraterrestre. A verdade é que não vi uma única pessoa a correr, nem sequer uma única bicicleta, nas duas semanas que passei nos Açores.

Mudei recentemente, e pela primeira vez, de rede telemóvel, porque me foi apresentado um pacote altamente vantajoso. O que o vendedor se esqueceu de me dizer, e é o melhor dos motivos para aderirmos à rede Optimus, é que pelo facto de nunca haver rede não conseguiremos fazer metade das chamadas que pretendemos, o que se traduz numa inegável poupança.

À vista do quartel dos bombeiros dirigi-me ao mesmo para solicitar que me deixassem fazer uma chamada para as Velas, para que me viessem buscar. O responsável da Protecção Civil estava incrédulo que eu tivesse vindo “de tão longe de bicicleta”. Quando o esclareci acerca da aventura que estava prestes a concluir, soltou um impropério nada condizente quer com a farda que garbosamente envergava quer com a prática dos açorianos, gente de quem é raro ouvir-se um palavrão.
Acabo as minhas reflexões, continuando a contemplar o ilhéu do Topo, e sento-me agora de cerveja na mão, mas não tenho tempo de a levar aos lábios, pois família e amigos acabam de chegar para me resgatar. Abraços e felicitações e sentamo-nos todos de cerveja na mão e olhar no horizonte a apreciar a sorte que temos em estarmos aqui todos a desfrutar do que a vida nos oferece.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Qualquer semelhança entre o seguinte relato e a realidade (não) é pura coincidência


Desde os tempos da escola primária, quando eram companheiros de carteira, que o João não sabe o que é feito de Clarisse. Curiosamente até moram a cerca de um quilómetro de distância, mas a rotina diária leva-os em sentidos diferentes: ambos são funcionários administrativos, João na Câmara Municipal de Estarreja e Clarisse na Câmara Municipal de Ovar.

Todos os dias, quando sai do emprego, João gosta de ir ao café do Arnaldo, beber umas cervejas com os amigos e falar acerca das últimas da bola. Quando chega a casa costuma encontrar os filhos pequenos a brincar, já com os banhos tomados e os trabalhos de casa feitos, e a mulher na cozinha a acabar o jantar. Faz um zapping à procura de bola, enquanto janta, normalmente em silêncio, só interrompido por uns impropérios que lança quando aparecem na televisão imagens de um clube que não o seu ou de uma cara que lhe soa vagamente a político. Sabe-lhe bem fumar um cigarro ainda sentado à mesa, que invariavelmente apaga nos restos que ficam no prato, antes de se levantar para ir novamente ao café.

Quando chega, já os filhos estão deitados e a mulher encontra-se a passar a ferro enquanto vai adiantando o almoço do dia seguinte para levar para a fábrica. João senta-se então ao computador onde procura mais amigos nas redes sociais. Esta semana tem-se fartado de escrever acerca da miséria que são os atletas portugueses nos Jogos Olímpicos, essa cambada de merdosos que nem uma medalha trazem! A gastarem o nosso dinheiro pra irem passear! E os amigos liquem bastante, e acrescentam insultos e injúrias, e aquele post já vai assim bem alimentado há uns 5 ou 6 dias. Nunca tinha tido tantos liques nem comentários.

A esta hora também Clarisse está ao computador. Envia mensagens a amigos e família. Como está longe de casa não cumpre a habitual rotina diária que, a esta hora, faria com que estivesse ainda nas lides domésticas. Esta semana é diferente. Nesta semana não se levantou diariamente às 7 da manhã para ir treinar debaixo de chuva nem correu para o estádio no final de um dia de trabalho para cumprir o programa bidiário de treinos, debaixo de um sol arrasador. Esta semana Clarisse caiu durante uma prova que liderava, levantou-se e conseguiu terminá-la, baixando o recorde Nacional dos 3000m barreiras, que aliás já lhe pertencia, e apurar-se para a final. Clarisse é a melhor atleta portuguesa naquela modalidade, tendo sido Campeã Nacional por 5 vezes, pelo que, apesar de ser atleta amadora, tem um contrato com um clube nacional com pergaminhos no Atletismo, que lhe fornece equipamento e lhe financia participações em provas. Aparte esta “ajuda” financeira, Clarisse tem um emprego que financia a sua vida extra-atletismo, o que não a impediu de conciliar treinos com trabalho e vida pessoal, conseguir os mínimos para os Jogos Olímpicos e terminar a final do 3000m obstáculos em 11º lugar, à frente de muitas atletas profissionais, como sejam a campeã do mundo em título.

O João é Portugal.

sábado, 21 de julho de 2012

A sensatez paga-se cara

A azáfama das últimas horas tinha agora dado lugar a um tranquilo anoitecer e os ruídos de passos e conversas iam progressivamente desaparecendo, cedendo protagonismo aos ruídos nocturnos da montanha, a coberto de uma magnífica lua cheia que começava a desenhar-se por detrás de pinheiros e araucárias.
A conversa, cada vez mais pausada, ia sendo entrecortada por um turbilhão de pensamentos, tentando imaginar cenários e antecipar sensações. Sinto uma mão a pousar-me no ombro e, ao descrever um preguiçoso movimento de cabeça com o intuito de lhe associar um rosto, ouço a voz do Vítor Coelho: “Ó Meixedo, não achas melhor ires descansar? Olha que aquilo amanhã não é para meninos”
Sorri-lhe, emborquei de um trago o que me restava da cerveja, e com um indolente abanar de cabeça assenti. Despedi-me do meu amigo Armandino e, sem grande convicção, iniciei a dezena de passos que me separava daquele que por uma noite iria ser o meu leito.

Do meio do nada surge um veículo todo-o-terreno, pára a sua marcha e fica envolto na nuvem de pó que ele mesmo havia acabado de levantar. Uma buzinadela, duas, e um grito que vem do seu interior: ACABOU!
Viro-me instintivamente na direcção no meu companheiro de jornada, não sem antes apagar a luz do frontal para não lhe ferir a visão, e tento nos seus olhos perceber alguma reacção. O Rui olha-me com uma expressão que adivinho idêntica à minha, igualmente procurando desvendar os meus sentimentos.
Somos interrompidos por novo grito vindo do interior: ACABOU! ESTÁ NEVOEIRO NA MIZARELA! Encolhemos os ombros, entramos na viatura e antes que pudesse pôr o cinto já estava parado no abastecimento dos 60km. “Querem ou não?”, perguntava o Moutinho. Mas eu não sabia o que responder pois nem tinha ouvido a parte inicial da questão: nos últimos minutos encontrava-me absorto a rever, numa rápida sucessão de imagens, as quinze horas de aventuras que acabavam de ser abruptamente interrompidas.



Tinha sido acordado por grossas bátegas de chuva às 4 da manhã e, após identificada a origem do ruído e de ter respondido a um arrepio com um segundo saco-cama, voltei a embrenha-me no sono, até ser interrompido pelo despertador às sete da manhã. A prova teria início às oito pelo que, instalado literalmente em cima da linha de partida e sabedor de que o secretariado abriria às seis, tinha a certeza de que acordaria com o habitual rebuliço que se erigiria à minha volta. Não poderia estar mais errado; o povo da montanha é sereno e ninguém me tinha acordado.

Arrasto-me para fora dos sacos-cama e salto para a chuva, uma rápida visita ao quarto de banho, um café e lá vou deglutindo o pequeno-almoço enquanto me vou equipando e vou cumprimentando atarefados companheiros que se espantam com a minha aparente calma, ainda em cuecas em plena linha de partida.
Caras conhecidas, abraços, fotos, tensão e alegria, muita alegria e a certeza de que não passava de um atrevido no meio desta casta muito especial de atletas. Ainda esfrego os olhos enquanto vou trocando impressões com o Rui literalmente na cauda do pelotão quando é dado o tiro de partida.

Arrancamos serra acima. A chuva desapareceu. Vou entretido a experimentar os bastões e a conversar com amigos, conhecidos e desconhecidos. O tempo passa. Fila indiana. Agora vamos serra abaixo.
Passamos alguns companheiros. Discutimos política. Já não somos os últimos. Corremos nas descidas e caminhamos nas subidas. O plano não existe. Nem no que diz respeito ao terreno nem no que diz respeito a estratégia. Abrimos o peito, enchemos pulmões.
Atravessamos uma galeria de uma antiga mina de volfrâmio, memória de que estes maciços já testemunharam azáfamas contrastantes com a vida pacata que por aqui hoje se vive. À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o Norte de Portugal, também a Freita acolheu uma efémera porém marcante experiência de exploração mineira, quando, nos alvores da segunda grande guerra, com a ilusão do lucro fácil e rápido, de muitas paragens demandaram a estas terras pesquisadores e aventureiros esventrando o solo um pouco por todo o lado, na esperança de encontrar volfrâmio que, por se tratar de um minério fundamental ao fabrico de armamento, assume um papel determinante ao esforço de guerra, atingindo nesse contexto cotações excepcionais.
Toda esta euforia não significou, porém, progresso porquanto não houve investimento. Pelo contrário, com o fim da guerra e a descida na cotação do volfrâmio, este deixou de ter interesse económico e os terrenos voltaram à sua função agrícola. Proprietários de estabelecimentos comerciais com os seus livros de débitos repletos viram-se na ruína e a década que se seguiu foi para todos muito penosa. Foi como o abrupto acordar de um conto de fadas e subsequente mergulho num pesadelo.
Também acordávamos das nossas reflexões de cada vez que um de nós escorregava e se estatelava com maior ou menor estrondo. Descemos vales. Subimos ravinas. Caminhamos em leitos de rios e mudamos incessantemente de margem. Enchemos cantis na mesma água onde mergulhávamos as pernas. E usufruíamos, desfrutávamos daquela que estava a ser uma aventura sem par. Por vezes escorregávamos. Blasfemávamos. Nos abastecimentos íamos encontrando cada vez mais companheiros encostados. Respeitávamos cada vez mais a serra. Tivemos calor. Tivemos frio. Vimos cair a noite.

– Então?!?
– Então o quê, Moutinho?
– Comemos aqui uma bifana e uma canja e mandamos abaixo uma mini?
– Já podias ter perguntado há mais tempo!
Sentado, de prato na mão, continuava a ver passar-me diante dos olhos uma sucessão interminável de imagens desordenadas. Montanhas, vales, rochas, rio, cabras, árvores, luz, muita luz, breu, penedos, vacas, mais água, subidas intermináveis, trilhos, musgo e verde, muito verde. Subitamente, um arrepio, de frio e de emoção. O murmúrio de vozes à minha volta parecia distante e não conseguia arrancar-me a esta confusão de sentimentos com que de momento me debatia.
Acabara abruptamente, e de uma forma que não tinha imaginado, a minha mais marcante experiência de montanha, feita na companhia perfeita do Rui. O resto já está contado por muita gente.

domingo, 10 de junho de 2012

Vão indo que que eu já lá vou ter


Depois de uma semana de calor e céu azul eis que o dia nasce cinzento e chuvoso. Seria o meu último dia em Velenje, o sexto consecutivo sem calçar sapatilhas, e uma das poucas vezes em que visitaria um país sem que registasse um único treino no meu garmin.

Decidido a contrariar o destino, tomo um rápido pequeno-almoço, dou um salto à faculdade para delinear com os colegas as estratégias para a redacção final do relatório e informo-os de que terei que ir fazer as malas e responder a uns emails e que estarei de volta pelas 10:30.
Dou um salto ao hotel, calço as sapatilhas e esgueiro-me por ruas secundárias em direcção ao lago, que alcanço em pouco mais de 10 minutos. Ao contornar o estádio municipal para entrar no parque da cidade deparo-me com uma multidão de corredores, absolutamente inesperada em face do que eu tinha visto ao longo da semana: ninguém a correr.
Havia uma bifurcação e o grosso do pelotão segue por um dos caminhos, sendo que eu de imediato opto pelo outro, para poder correr de forma mais desafogada. Apercebo-me, entretanto, que se trata essencialmente de atletas do sexo feminino e que correm a um ritmo lento.
Calmamente lá as vou ultrapassando uma a uma até que finalmente me encontro a correr completamente sozinho, com o caminho sobranceiro ao lago todo por minha conta.
Inesperadamente, ao desfazer uma curva, deparo-me com 3 fotógrafos que disparam desesperadamente na minha direcção, vejo o estádio a aparecer na minha frente, ouço um speaker a pronunciar frases imperceptíveis e eis que surge um meta diante dos meus olhos. De repente apercebo-me do contexto e em fracções de segundos tomo a decisão de passar ao lado da meta e continuar a contornar o estádio. Passados uns 100m estou de novo na tal bifurcação que tinha separado os dois grupos. Agora, sem multidão a tapar-me as vistas, vejo uma pequena seta com a inscrição “8 km” apontando para o caminho que há uns 2kms eu não tinha tomado. Opto agora por este percurso e corro sozinho ao longo de 8km, até que regresso de novo à meta, que agora resolvo atravessar para poder ter acesso à água, que de imediato cuspo quando meto a garrafa à boca pois a malta, por estas bandas, só bebe água com gás.
Regresso rapidamente ao hotel, feliz por ter desenferrujado as pernas e divertidíssimo com os acontecimentos: em menos de uma hora tinha feito duas corridas consecutivas, tendo ficado em primeiro numa e em último noutra.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Aprendiz de feiticeiro em jornada dupla








Ponto 15-43, 15-43 … 15-43 … no cruzamento à direita, 43, … cruzamento à direita, 43 …
– Ó sinhôr, biu o 22?
– Não.

43, cruzamento à direita, … bolas! O miúdo distraiu-me, já passei o cruzamento. Para trás … agora é à esquerda …”

 Ó Bruuuuuuuno, esse é o 39?

Agora sigo a linha de alta tensão e é no ponto de cota mais elevada … onde é que está a linha de alta tensão?!! Devia estar aqui em cima da curva … népia … só se for este muro!?! Pois, esta linha com bola deve ser muro e não linha de alta tensão … SIGAAA”

 Ó sinhôr tem aí em cima alguma bandeira?

 Sim.
 
– Que númbaro é?

– Já não me lembro, já vou a descer; tens que ir lá ver se não perde a piada.

 “Ora bem, para onde é que eu ia? Já me baralharam outra vez as contas … é já a direito pelo meio deste verde! … eh pá, é só silvas! Ei já estou todo picado, e sangue e o camandro … mas aqui no mapa isto está a verde e bem nítido, bem escurinho … bom, que se lixe, pra trás e à volta …!”
– Ó sinhôr, por aí passa-se?

– Não te metas nisso rapaz, é perigoso. Não vez como estou todo picado?!
 
“… dentro de um quadrado? Quadrado aqui … só aquela ruína … cá está”
“… ah, desta vez não me apanham, está claramente do outro lado desta linha azul que só pode ser uma linha de água. Vou à volta pela ponte … azar nítido, está seca, tinha dado para passar!
  
“… olha outra linha de tensão; pois, pois, agora já sei que é muro …”

– Ó Joana, biste o Setôr? Num encontro o ponto, vou desistir.
– Ó meninas, que conversa é essa? Aqui ninguém desiste; vamos lá ver: de que ponto andam à procura?



Depois da diversão da véspera, e dum honroso 24º lugar em 33 competidores do escalão Difícil Masculino, acordei domingo, sobressaltado e com esforço, pois a diversão havia continuado noite dentro, noutros moldes bem distintos e a propósito de uma animada festa de aniversário.
A muito custo lá me levantei e de imediato tomei a decisão de ir de Vespa, porque precisava de muito ar frio na fronha. Iria ser fisicamente penoso e nem me passava pela cabeça repetir a classificação da véspera, da mesma forma que não me passava pela cabeça faltar à chamada, pois que esta coisa da Orientação começa a entranhar-se e mais a mais esta iria ser para mim uma data histórica: a estreia como atleta do GrupoDesportivo 4 Caminhos.

Encontro com amigos, os de sempre e os novos, hidratação – muita, aquecimento – pouco, partida e lá vou eu talude abaixo em busca do primeiro ponto. Neste circuito, com uma forte componente urbana, e portanto sem que o conhecimento da sinalética seja tão preponderante, não houve lugar a hesitações e dei tudo o que tinha e o que não tinha, para terminar num surpreendente 15º lugar, de entre os 40 atletas que terminaram o escalão Difícil.
A continuar assim ainda experimento isto com bússola, um dia destes.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Trilho dos abutres – 45km de emoções

Tal como nos anos 80 fechava os olhos para dormir e só via peças de tetris a encaixar, também agora cerro as pálpebras para repousar e vejo desfiar pelo meu cérebro uma sucessão interminável de fotogramas aparentemente sem sequência lógica: tão depressa estou a olhar para o chão e a ver as minhas sapatilhas enterradas na lama, como no momento seguinte alargo a vista ao horizonte e absorvo a magnífica envolvente da serra, que imediatamente é substituída por um tronco atravessado a 10 cm dos meus olhos, trilhos, água, fetos gigantes, penedos, subidas intermináveis, mochilas, musgo, árvores, descidas impossíveis, conversas, e rostos, muitos, uns conhecidos e outros que passaram a sê-lo.

O corpo, dorido de um imenso esforço de oito horas consecutivas de ininterrupta actividade, procura agora, lenta mas incessantemente, a inexistente posição perfeita para repousar.

Paradoxalmente, o sono tarda em aparecer. Talvez seja daquele aguado mas reconfortante café servido pelos inefáveis bombeiros de Miranda do Corvo, ou talvez seja o cérebro a pregar-me partidas e a esforçar-se por prolongar estas sensações únicas de uma jornada ímpar, garantindo desta forma que ela permaneça bem gravada na memória.

Agora, que vou sentindo o cansaço prestes a convocar Hipnos e que seguramente em conluio com Morfeu estão prestes a pregar-me uma partida, procuro antecipar-me e ir ainda a tempo de convocar para registo na memória os múltiplos momentos de contacto com todos os companheiros que, desde há meses trabalham para que esta tenha sido para todos nós uma aventura inesquecível.

Fui …

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

À terceira não foi de vez


Quase meia-noite e o sono não vem


A ansiedade é grande.


Ainda tentei convencer os meus companheiros de abrigo a aviar uma de verde branco com a massa do jantar, para relaxar desassossegos, mas fui pouco persuasivo.


O Luís recolheu-se cedo e ao Vitor ainda o retive até às onze. Depois, no silêncio da noite da aldeia, rapo do livro de cabeceira e procuro algo que me acalme as emoções. Lá acabo por embalar.


“– Sim, estou melhor, obrigado por perguntares … e desculpa

ter-te tratado por tu sem termos sido apresentados, embora sinta que te conheço há muito”


“– É a melhor maneira de o fazeres, sou apenas mais um maluco que anda aqui a correr à chuva no meio do monte”, retorquiu o João Garcia.


Não deve haver muitos desportos em que os atletas amadores tenham a possibilidade de conviver com aqueles cujos feitos admiram e cujas aventuras acompanham como suas. Aqui estava eu à conversa com o responsável por na véspera ter apagado a luz já bem próximo da uma da manhã.


Esta troca de palavras deu-se debaixo de uma indescritível invernia, durante um trote ao longo da estrada que liga S. Lourenço da Montaria a Dem, após ter-nos sido barrado o caminho ao quilómetro vinte, devido às condições atmosféricas no alto da Sra. Do Minho.


Para quem após duas curtas experiências de trail preparava a estreia na maratona de montanha, para quem conduziu centenas de quilómetros, para quem veio de véspera, para quem trocou vale de lençóis na primeira noite fria do ano para estar no meio da serra ainda de noite e debaixo de um céu carregado, para quem … tudo e mais alguma coisa, é indescritível o desapontamento ao ver-se abruptamente impedido de concretizar um sonho que já ia a meio e para o qual treinou dezenas de vezes e com o qual sonhou ao longo de meses …


… todavia, meus amigos, não haverá ninguém mais inconsolável do que quem abdicou de horas de treino, de repouso, de convívio com a família ou de simples ripanço para, com grande esforço, por de pé um sonho antigo. A decisão da Organização não foi seguramente fácil nem tomada de ânimo leve. A minha solidariedade vai toda para aqueles que tudo fizeram para nos prestar o melhor dos apoios.

Abre lá as inscrições para 2012, Carlos, que a malta está à espera.


à partida tudo são sorrisos ...


... e à chegada também.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

No país onde as vacas não se riem

“ – E agora, à nossa direita, o Museu Bata de Calçado”, anuncia o guia.

“ – Porquê um museu Bata em Toronto, quando a marca é Checa?”, perguntamos nós.

“ – Ai é checa?!”

“ – Claro, era a fábrica onde trabalhava Emil Zatopek”, returco.

“ – Quem?”

“ – Emil Zatopek, o mais brilhante atleta de fundo e meio-fundo de todos os tempos”, insisto.

“ – ?????? … atenção, aqui o nosso amigo português tem uma informação para nos dar acerca de um tal Emir Zaroteq e da marca Bata, que ao que parece não é Canadiana”.

Um inglês toca-me no ombro e, a meia voz mas de modo a que toda a gente consiga ouvir, diz-me: "Não perca tempo amigo, o guia é provavelmente o único do grupo que não sabe quem foi Emil Zatopek”.

Não me arrependo de ontem o ter comprado nem de o ter lido de um fôlego, mas confesso que estava à espera de mais, … não do Zatopek mas antes do Jean Echenoz.

domingo, 7 de agosto de 2011

Será do guaraná?

Estava calmamente há uma semanita em férias quando um dia acordo com uma dor de cabeça que me acompanhou o dia todo; a mim que dores de cabeça só conheço as provocadas pelas ressacas.

Atribuí logo o facto ao café que, para além de ser mais fraco por estas bandas, tenho tomado em menor quantidade. À cautela, no dia seguinte, como acordei com idêntica moedeira, dupliquei a dose de cafeína, acrescida ainda de uma ou duas coca-colas. A dor de cabeça continuou, e eu atribuí a coisa ao ar-condicionado.

No terceiro dia evitei o ar condicionado, mas a dor continuou.

Hoje, ao fim de mais de 300km de condução num país estranho e apesar de estarem 32oC às 5 da tarde, resolvi fazer uma coisa que não fazia há 13 dias: calcei as sapatilhas e fui treinar.

Foram 57 minutos para percorrer 10 míseros quilómetros planos, e mal cheguei atirei-me para debaixo dum chuveiro de água fria.

Não vale a pena perder tempo com grandes ilações acerca duma realidade que todos conhecemos: que a falta de exercício nos afecta emocionalmente.

O que eu agora constato e para mim constitui novidade é que a mesma falta de exercício nos afecta fisicamente; e não, não estou a falar de gordura: não me dói a cabeça há duas horas.

domingo, 3 de julho de 2011

Ultra Trail Serra da Freita - versão "só um cheirinho"

Recém chegado dos 17 km da Freita e, de momento, com preguiça para escrever, deixo-vos aqui algumas fotos de locais por onde hoje corremos, caminhamos e rastejamos.












domingo, 12 de junho de 2011

Uma pipa que não cheirava mal dos pés

- Aiii!

O pé direito deslizou ao longo da laje, fiz rotação ao corpo para tentar o equilíbrio e ainda fui amparado por um companheiro que vinha colado a mim, mas o joelho direito bateu forte no granito.

É continuar enquanto ainda está quente, mas com cautelas. Recomponho-me com a ajuda do Vitor, escalo mais esta parede deste por ora seco leito de um jovem curso de água que não teve ainda tempo de erodir os infindáveis e pontiagudos pedregulhos que preenchem toda a sua base. Dou um passo e o GPS apita mais um km – o mais lento de toda a minha vida, em torno dos 18minutos.

Bem sei que nele está incluída a paragem no segundo e último abastecimento (o único com sólidos), onde paramos um bom bocado pois tínhamos acabado de descer uma prolongada ravina xistenta, que tinha sido antecedida por um estreito e infindável trilho camuflado no meio de urze, giestas e penedos graníticos, o qual tinha sido precedido por uma interminável escalada ao longo de uma encosta pedregosa, árida e nua como uma careca, que por sua vez se nos tinha apresentado como contraponto a uma descida alucinante por um carreiro de terrarossa atapetado por inúmeros fragmentos calcários levemente pousados – autênticas armadilhas aguardando por um pé mais confiante.

A progressão mantinha-se lenta mas confiante, sempre atentos aos pontos conspícuos, agora que a prova já ia com 17 ou 18kms e não víamos nem ouvíamos vivalma. Enquanto fomos tendo companhia de outros atletas o padrão foi-se mantendo constante: ganhando algum terreno nas subidas, fugindo por completo nos poucos e curtos estradões e sendo ultrapassados nas descidas por um número de atletas directamente proporcional à perigosidade das mesmas.

A prova aproximava-se do final. Havíamos finalmente deixado para trás o rio de água em pó e seguíamos agora por um estreito e pedregoso carreiro já nas fraldas da serra e que haveria de nos conduzir a um último km de alcatrão que nos vomitaria dentro de Alvaiázere.

Chegados à estrada podemos por fim fazer aquilo que sabemos e há muito ansiávamos: alargar a passada. Após tantos kms detectamos finalmente um atleta ao longe e fomos no seu encalço. Passamos um, dois, três, quatro, cinco atletas e vimo-nos em frente ao pórtico que atravessamos confiantes, abraçados e de sorriso nos lábios.

Tínhamos acabado cumprir 21kms na nossa estreia na montanha, numa prova que ultrapassou em pouco as três horas. Estávamos satisfeitos e orgulhos por termos dado os primeiros passos que nos levarão um dia destes a ter o direito de reclamar fazer parte dessa casta de atletas.

Desligamos os frontais e encaminhamo-nos tranquilamente para a mesa de abastecimentos.

É que me tinha esquecido de dizer que a prova foi nocturna.


















Na foto, os outros dois grandes companheiros de viagem: os amigos Carlos Rocha e Joana Leite.

Quanto à pipa que não cheirava mal dos pés, é uma private joke, e ficou ali só para vos despertar a curiosidade e vos obrigar a ler a crónica até ao fim.

domingo, 8 de maio de 2011

Fim-de-semana desportivo

Após a estreia do fim-de-semana passado, respondi ontem pela segunda vez à chamada da Orientação, desta vez no Parque do Carriçal, numa prova em memória de Sálvio Nora.

Inscrito, tal como na semana anterior, no escalão Médio, farte-me de esperar, debaixo de chuva, pela minha vez de partir, pelo que, de forma algo atrevida mas vendo que era a única forma de partir de imediato e sempre com o pensamento de que alguém tem que ser o último, troquei a minha inscrição para o escalão Difícil e lá fui.

O ambiente que rodeia estes eventos, aliado ao facto de ser um desporto que combina o físico com o intelecto, sem ignorar a satisfação de ter ficado em 14º num total de 33 atletas, à frente de alguns federados, obriga-me a dizer, provavelmente de forma algo prematura, que já fui mordido pelo bicho da Orientação. Não se livrarão de mim.

Isso foi ontem, porque hoje desloquei-me na companhia do Vitor (parabéns por mais um recorde pulverizado) e do Luis Pires, a Cortegaça, para correr mais uma Meia. Foi preciso fazer 20 Meias para começar a ter algum juízo: comecei a um ritmo lento, talvez mesmo demasiado lento, e fui fazendo a prova de trás para a frente.

Terminei com o mais extenso e mais rápido sprint de que tenho memória, num modesto tempo de 1:39:07 – uma meia dúzia de minutos acima do meu recorde – mas de forma fisicamente tranquila. Os recordes são coisa do passado.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Porto On The Run

Numa altura em que, desde Janeiro, encerram 64 empresas por dia neste rectângulo esquecido aqui onde termina a tal de Europa, estes vossos amigos Vitor Dias e João Meixedo resolveram meter a mão na massa. Eis a nossa mais recente aventura.

A ideia nasceu no seio de um grupo de maratonistas que se considera privilegiado pelo facto de viver no Porto e que têm toda a satisfação em partilhar a beleza desta magnífica cidade com outros entusiastas da corrida que os visitem.

Porto on the run oferece percursos citadinos alternativos que se pretende satisfaçam o participante quer do ponto de vista turístico quer do ponto de vista desportivo, na medida em que se proporciona a oportunidade de sentir a cidade de um modo diferente do habitual e que se pretende seja entusiasmante e excitante.

Para os visitantes do Porto para quem a corrida constitui uma parte essencial da rotina diária, por mero prazer ou enquanto integrado na preparação para uma prova, Porto on the run oferece a possibilidade de cumprir esse plano de treinos explorando trajectos novos e interessantes.

We are a group of marathoners that have the privilege of living in this remarkable city and are pleased to share its beauty with other running enthusiasts that visit us.

Porto on the run offers alternative city tours that will please you both as a runner and as a tourist, since we will provide you the opportunity of experience our city in an exciting way.

If you’re traveling to Porto and running is an essential part of your daily routine, for mere pleasure or because you’re training for a race, we offer you the possibility to fulfill your running plan by exploring new and interesting routes.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Mais uma pérola ...

... deste local mal frequentado a que nos habituamos a chamar de país:

Ao contrário do que se passa com todos os outros desportos (e, já agora, com alguns alimentos) cujo iva se manterá nos 23%, o actual desgoverno prepara-se para baixar o iva relacionado com o golfe - esse desporto dos proletários e desfavorecidos - para apenas 6%.

sábado, 12 de março de 2011

Não é transcendente, não é complexo, não é irracional, bom, pelo menos é primo, e real, claro; e natural.

Toda a gente sabe como as necessidades da vida corrente exigem que, a cada momento, se façam contagens … se o homem vivesse isolado, sem vida de relação com os outros homens, a necessidade da contagem diminuiria, mas não desapareceria de todo …

Bento de Jesus Caraça

in Conceitos Fundamentais da Matemática – A contagem, operação elementar da vida individual e social


De que é que estava eu a falar? Ah, pois, já me lembro: do número 3.

3horas, 3minutos e 33segundos para fazer 33km (e meio J).

E agora vocês perguntam: o que é que o António Pinto tem a ver com a questão?

E eu returco: “qual é a semelhança entre um sacristão, uma escada e uma garrafa?”

E respondo: “entre o sacristão e a escada não há nenhuma semelhança e a garrafa é só para despistar”

Perceberam? Pois, a foto não tem nada a ver com o treino de hoje, mas nunca mais surgia um pretexto para colocar aqui esta foto do atleta português que desde sempre mais admiro*, de modo que inventei o pretexto.


*O que está ao lado dele é o António Pinto J

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O maior cego é aquele que não quer ver

Planos de treinos para trás, planos de treinos para a frente, séries, ritmos, rampas, trotes, fartleks e companhia, tudo a bombardear infrutiferamente aqui o crânio do João sem resultado nenhum à vista que não seja a insatisfação permanente do dever incumprido.

De repente, hoje durante um treino, fez-se finalmente luz pelo que aproveito este espaço para patentear o Milagroso Plano de Treinos do Meixedo para a Maratona, também conhecido por Serviços Mínimos.

Então cá vai a versão mais recente do secreto treino de três treinos por semana:

Terça-feira: 10 a 12 km

Quinta-feira: 15 a 16 km

Domingo: 20 a 30 km

Os ritmos são à escolha do freguês. Se apanhar subidas, suba, se apanhar descidas, desça, se não, não.

Esta semana cumpri à risca: 11, 15 e 23km, respectivamente. Finalmente de consciência tranquila.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Marx morreu, Engels também e mesmo eu já não me sinto muito bem

A oito semanas da próxima maratona mantém-se o religioso incumprimento do plano de treinos, com a tendência dramática espelhada no gráfico abaixo (em que temos em ordenada os quilómetros e em abcissa as horas) referente às últimas quatro semanas.


É nesta alturas que expressões tão profundas como “dedica-te à pesca”, “devagar se vai ao monge” ou mesmo “o hábito faz o longe” parecem fazer todo o sentido.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Um dia muito especial


Hoje, na 1ª Corrida dos Reis em Gaia, tive o privilégio de lançar no atletismo amador o meu irmão mais novo. O objectivo foi simples de definir: não o largar do primeiro ao último metro e assegurar que chegaríamos ao fim antes de acabar o chá e o bolo-rei.

Dada a partida deixamos avançar a marabunta e posicionamo-nos calmamente na cauda do pelotão. Deixei o Jaime definir um ritmo que lhe fosse confortável, que na primeira parte da prova andou sempre muito próximo dos 6min/km, mas sem lá chegar.

À passagem do 6º km e após verificarmos que já não havia água para distribuir

aos atletas da cauda do pelotão o rapaz desmoralizou um pouco e passamos a rolar em torno dos 6:30 até que, à vista da placa dos 9km o meu irmão soltou um sonoro “já só falta um, é agora!” e repentinamente acelerou para um quilómetro que viria a ser realizado a 5:30. Pela primeira vez em toda a prova, começamos a ultrapassar atletas um a um, ganhando com isso cada vez mais alento.

A uns 10m da meta alcançamos o Miguel Marujo e cortamos os três a meta abraçados, num registo não oficial de 1:01:59.

Já ao cair do pano recebo a notícia de que o amigalhaço Vitor bateu o seu recorde na distância.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Aloha

Depois de, no site da Maratona de Honolulu, ter lido esta notícia, fico proibido de me queixar acerca de lesões e outras preocupações.

A senhora da foto, com a bela idade de 92 anos tornou-se na menos nova atleta a cumprir uma maratona (em menos de 10 horas), batendo assim o antigo recorde de uma jovem Escocesa de 90 anos.

Mas não se pense que Glady é uma estreante, nada disso; ela já anda nisto desde os seus 86 anos, idade em que se estreou na distância mítica.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Começar o ano da melhor forma


Catorze quilómetros de bicla em Vilarinho das Furnas, para cumprimentar o novo ano:
... foi curto mas duro, tendo em conta que o pedalador mais novo tinha apenas 7 anos mas resistiu a subidas e descidas, terra, asfalto e paralelo.

Seguiu-se um treininho de uma hora de corrida com três dos resistentes, constituído por 3 voltas à aldeia:
... foi duro porque a rebarba era grande (a noite anterior foi dormida muito depressa ...).
Mas levamos as T-shirts do clube para impressionar cabras e ovelhas.