quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quantos banhos, …

… quantas pescarias, quantos verões, quantas vezes atravessei pessoas com os meus irmãos e o neto do Ti Manel Coutinho, o barqueiro. Exactamente aqui neste cais. Dois e quinhentos, ou cinco coroas, que era a mesma coisa, custava atravessar uma pessoa. Excepto os padres que não pagavam nada. A barca não tinha vela, o rio era pouco profundo e atravessava-se à vara. Também se atravessavam motas e bicicletas, mas para o gado tinha que ser a barca grande e chamava-se o Ti Manel, que era empreitada séria fazer bicharada subir a bordo.



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Então, o resto da coisa desenvolveu-se da seguinte forma:

Aviso à navegação: o post é longo, apesar de ser um curtíssimo resumo dos acontecimentos. Se fosse eu não perderia tempo a ler.

CAIRNS

Após Brisbane voamos para Cairns, uma cidade litoral encostada à Rainforest – a floresta tropical – e principal porto de acesso à grande barreira de coral.

Rentabilizamos ao máximo a nossa estadia, alugando um carro e rumando a norte ao longo da magnífica estrada marginal que vai serpenteando o sopé das encostas à medida que vai penetrando na Rainforest.

A estrada é o único elemento de separação entre a praia e a floresta, que cai literalmente em cima da areia. Atravessamos aldeias minúsculas, compramos fruta a aborígenes, atravessamos um rio numa enorme jangada motorizada pomposamente apelidada de ferryboat, caminhamos na praia e em trilhos na floresta, vimos aves estranhas e sentimos o silêncio.

Sobrevoamos a floresta num teleférico que nos transportou por cima de copas de árvores altíssimas e centenárias até ao topo de uma montanha, de onde regressaríamos num comboio do início do séc. XX. Vimos uma queda de água que metia a Frecha da Mizarela num chinelo.

Em pleno contraste com o que acabo de descrever, num outro dia, embarcamos num catamaran, que nos levou a uma ilha junto a uma barreira de corais, onde mergulhamos para ver a diversa fauna marinha que habita estes recifes.

Uma experiência única que repetirei sem hesitações numa outra qualquer parte do mundo onde venha a ter essa oportunidade.

Treinos: 0.

OUTBACK

De Cairns levantamos voo para aterrar em pleno Uluru National Park onde, olhando em volta, só víamos vermelho ferrugem pintalgado de verde. A pista, já parcialmente coberta de pó, encaixava na paisagem como um camaleão.

Partimos à procura de novas sensações e, a cada curva de estrada lá aparecia e desaparecia o enorme monólito vermelho. É impossível não nos sentirmos pequenos e insignificantes. A paisagem convida ao silêncio e ao recolhimento. Ao caminharmos nos trilhos, ao pasmarmos a observar o enorme rochedo que vai mudando de tonalidade à medida que o dia caminha para o seu ocaso, ou simplesmente enquanto jantamos um delicioso grelhado de carnes no churrasco da estância onde ficamos, as pessoas cumprimentam-se como se fossemos todos velhos amigos ou conhecidos, mas a calma reina. No fundo, todos sentimos que somos privilegiados por ali podermos estar.

Em pleno coração do Outback empreendemos uma viagem repetitiva mas não monótona ao longo de rectas infinitas e paisagem a perder de vista. De dez em dez minutos lá nos cruzamos com outro veículo e trocamos cumprimentos. De meia em meia hora alcanço um veículo, ultrapasso-o e é um momento de excitação. Ao longo dos 500 km que nos levariam a Alice Springs encontramos como únicas edificações 4 postos de abastecimento rudimentares, à boa maneira dos road movies. Por vezes apercebíamo-nos de algum frenesim na berma da estrada, abrandava e víamos um bando de abutres a banquetearem-se com um canguru, provavelmente atropelado durante a noite.

Na segunda manhã, após um farto pequeno-almoço e porque a família precisava de descansar um pouco, decidi ir treinar, coisa que não fazia há 6 dias. Corri ao longo das margens do Tod River – não sei se a esquerda ou a direita, pois apesar de aqui ser Inverno, o leito está completamente seco – e ao fim de 2 kms já estava fora da zona urbana, em plena reserva ecológica, onde segui um trilho à sorte, o que me levou a rolar no meio de um ambiente inóspito e seco, tendo-me cruzado com outro corredor – cumprimentamo-nos efusivamente – e nem mais um ser humano veria ao longo de hora e dez de treino.

Treinos: 1 (11km a 5:40)

ADELAIDE

Devolvi o carro em Alice Springs e voamos para Adelaide, onde o início da última e longa parte da aventura nos esperava: uma viagem de automóvel de mais de 3.000km, sempre ao longo da costa, até Sidney, passando por Melbourne.

Permanecemos pouco na grande cidade, antes fazendo incursões aos arredores, às zonas vinhateiras. Um dos dias foi inteiramente dispendido na visita à famosa (para quem se dedica às minhas lides) e histórica povoação mineira de Burra Mine. Ao fim de uma hora estamos de regresso às extensas planícies esparsamente povoadas, tratando-se agora de extensas pastagens, com a linha do horizonte como limite. Na verdade o dia só terminaria já em Adelaide, numa Pasta Party, na Câmara Municipal, organizado pelo South Australia Road Runners Club, responsável pela edição da 32ª edição da Adelaide Marathon, dali a dois dias …

Pois é, sem que, à excepção do Vitor Dias e da minha família, ninguém soubesse, e sem treinar nada que se visse, estava inscrito para corrê-la, nem que demorasse 5 horas. Não poderia vir a esta parte do mundo, pela primeira e muito provavelmente última vez, e não procurar uma maratona com data compatível com as nossas deslocações.

ADELAIDE MARATHON

Em termos de treinos, os últimos dois meses resumem-se do seguinte modo:

Corrida Festas Cidade do Porto: 15km

2 dias parado

5 kms

8 kms

19 dias parado

7 kms

8 kms

8 kms

15 dias parado

5 kms

10 kms

10 kms

12 kms

5 dias parado

11 kms

1 dia parado

6 kms

1 dia parado

Maratona

Decidimos jantar massa num italiano, mesmo em frente ao hotel. Estava fechado ao sábado! Já era tarde, de modo que jantamos no restaurante da porta ao lado: um tailandês! Nada mais indicado para uma véspera de uma maratona. Tive que matar todo aquele picante com maduro tinto.

Acordo à 0:40 com um temporal medonho e nunca mais repousei decentemente, de modo que às 4:30 já estava a pé. Chego ao Adelaide Oval Stadium às 5:40 e nem vivalma. Calma, meus amigos, não pensem que era cedo de mais: a partida da maratona estava prevista para as 6:45 e a dos marchadores para as 5:45. Não, não era por causa do calor, pela primeira vez corri uma maratona com uma camisola interior de mangas compridas e que bem me soube.

Dou a volta ao estádio e nada! Já na véspera lá tinha estado, para reconhecimento do local e nada! Estaciono o carro e antes de ter tempo para angustias vejo a luz de uma bicicleta (era noite cerrada) e caminho nessa direcção. Seguem a bicla 10 ou 12 tipos equipados, em passo acelerado, e pergunto-lhes sobre a maratona. “É aqui mesmo, nós somos os marchadores”.

Tão depressa me respondem, como logo vejo o Paul (o director da corrida, que conhecera 2 dias antes, na Pasta Party) que , dirigindo-se ao pequeno grupo, pergunta “Como é, estão todos prontos? Posso dar a partida?” e, junto a um poste de cerca de 2 metros com uma bandeirinha no topo e que só agora vislumbro, diz: “Bom, então boa sorte e vamos lá: 1, 2, 3 partida”. E lá segue o grupinho, pela berma, com a imponente escolta de uma bicicleta devidamente equipada com luz branca à frente, vermelha atrás e um colete retro-reflector no ciclista. Um luxo!

O Paul indica-me uma porta lateral do estádio onde “estão montadas as infra-estruturas”, que é como quem diz, “a porta está aberta, e tens lá dentro um wc e, se começar a chover, podes aquecer abrigado debaixo da bancada”.

Começa a aparecer gente e aproxima-se a hora. Curiosamente, nunca me senti tão descontraído antes de uma Maratona. Converso com um e com outro e o ambiente é excelente. Converso com um Neozelandês que continua com o seu saco da muda na mão, apesar de faltarem 10 minutos para a partida. Pergunto-lhe se não o vai guardar e ele responde que o vai entregar no camião que a Organização tem para esse efeito. Aponto-lho e digo: “vamos lá, já só faltam 10 minutos?”, ao que ele responde: “ainda deve estar fechado, ainda faltam 10 minutos”!! E estava mesmo!

Faltam 5 minutos e eu continuo sem perceber onde é a meta. O ambiente é do mais descontraído e amistoso que se possa imaginar.

As pessoas começam a abeirar-se da estrada – que não está cortada – e da tal bandeirinha. Todos conversam, nas duas bermas. Aparece o Paul: “Atenção caros amigos, parece que está na hora”. Um voluntário de cada lado corta a estrada e vejo a uns 50 metros duas motas da polícia, que seriam a única guarda de honra. Ninguém parece saber para que lado é a partida e muito menos onde é a linha de meta. Deixo-me estar junto à tal bandeirinha e, de repente, em 10 segundos, forma-se uma linha perfeita e eu estou, pela primeira vez na vida, na linha da frente, de modo que empreendo uma deslocação para trás, ao contrário do que se costuma ver em qualquer provaseca em Portugal. Não há atropelos e não estamos uns em cima dos outros. Na área que nós – cerca de 400 – ocupamos, caberiam 3.000 numa prova em Protugal.

Partida: primeiro km a 4:50. Devo estar louco, há meses que não faço um km a esse ritmo. Abrando. Segundo km: 5:10. Ainda é muito rápido. Deixo-me ser ultrapassado por 80% do povo e estabilizo a 5:25. Assim está bem, mas continuo sem perceber: ou o meu GPS está louco ou algo se passa; toda a gente com quem conversei ia para mais de 4 horas…

Lá vou rolando entre os 5:15 e os 5:20. Tinha-me proposto rolar a 5:40, mas sinto-me bem e assim completo os 10kms, já fora do centro da cidade, agora numa zona de casas de praia. Ouve-se o mar e o vento é mais que muito. Está frio, mas o dia começa a clarear. A estradas não estão cortadas mas não há trânsito. Rolamos pelas ciclovias ou, à falta delas, pela berma sinalizada com mecos a cada 2 metros.

De vez em quando temos que mudar de berma e, no cruzamento, lá está um único voluntário que sem esforço e com a imediata colaboração dos poucos automobilistas faz parar o trânsito.

Ninguém corta caminho. Não estou em Portugal.

Estamos agora junto ao mar e corremos ora num passadiço de madeira ora numa ciclovia de terra batida, com as ondas a saltarem-nos para cima. Rolo agora a 5:30-5:35, mas com mais esforço. Pelo km 16 dói-me o bíceps direito. Abrando e mal me aparece algo parecido com uma parede, alongo. E não é que passa?!

Saímos da beira-mar, fugimos ao vento e rolamos agora em torno das margens de um lago. Tudo muito bonito. Retomo o ritmo e vou baixando, até estabilizar nos 5:10-5:15, assim fazendo 5 ou 6 kms, até que ao km 22 me dá uma forte dor no tal de tendão que se desinseriu do osso da bacia. Abrando. Páro. Solto vários palavrões em português. Massajo, carrego com força e retomo a marcha. Lembro-me do Paulo Rodrigues e do Luís Pires e da forma como correm, sem levantar em demasia os pés e sem abrirem demasiado a passada. Resulta! A dor ficaria lá até ao final da prova, mas não me impedia de correr.

Por volta do km 24 regressamos à beira mar, mas em sentido contrário. A expectativa de que o vento estaria agora a favor gorou-se. Estava de lado, e como desconheço o conceito de bolinar no atletismo, gostaria mesmo era de ter vento de popa.

Pelo km 30 entramos no parque da cidade e aí nos manteríamos até ao final da prova, que se tinha mantido sempre plana, contribuindo para que eu me aguentasse. O parque é atravessado por ruas, sendo que sempre que isso acontece, o caminho passa por baixo da via. Se , apesar de curtas, as descidas me arruinavam, as subidas acabavam literalmente comigo. E esta sequência de subida/descida repetia-se incessantemente. O ânimo ia-me sendo dado pelas ultrapassagens que agora ia fazendo com regularidade (algumas eram seguramente a atletas da meia, que partiram mais tarde, mas eu não olhava para os dorsais e isso dava-me alento).

No km 38, e após uma dessas subidas, esta de cerca de 100m, morri. Havia um abastecimento no final e eu parei. Bebi. Voltei a beber. Caminhei e comecei lentamente a correr, mas sabia que o fim estava próximo. Pela primeira vez em toda a prova, não me interessava o ritmo. Só queria chegar ao fim. Cheguei a fazer um km a 5:55.

De repente, ali estava o estádio. Entro e vejo duas atletas, provavelmente da meia, que de imediato decido ultrapassar no meu costumeiro sprint final. No momento em que as passo, levanto a cabeça e vejo a meta a uns 20 metros, e vejo também o Paul, um pouco antes, de micro na mão. Vê-me e grita “My portuguese friend. Hey it’s the portuguese marathoner”. O sorriso que veêm na foto abaixo é desse momento, em que ouço a ovação de 50.000 nas bancadas. Eu descrevi 50.000? Queria escrever 50, mas soube-me como se fossem 50.000.

Confesso que embora tivesse apregoado 4:30, como objectivo mínimo, tinha a esperança de fazer abaixo das 4:00h (nem que fosse um segundo), mas nunca esperaria fazer 3:47:39. Bem melhor do que em Paris.

No final também não há o atropelo habitual da tugalândia, onde o tipo que corta a meta 10 minutos depois de mim recebe a saca do Sumol e da sandes de fiambre 5 minutos antes. Aproveitei para alongar enquanto esperava e, mal recebi a medalha meti-me ao caminho do hotel, onde cheguei às 11:25 e tinha que fazer o check out às 12:00. Foi só tomar um duche e sair.

A ideia era descansar um pouco, mas uma vez dentro do carro ia descansar onde? De modo que pouco mais de uma hora de ter feito a maratona encontrava-me ao volante, numa jornada de quase 500 km ao longo da Limestone Coast, até Mount Gambier. O que vale é que ao fim de pouco mais de meia hora a estrada era só nossa e a dupla combinação cruise control com caixa automática fazem as delícias de qualquer aprendiz de feiticeiro.

ADELAIDE – MELBOURNE – SIDNEY

Nove dias e mais de 3.000 kms ao longo da Great Ocean Road, penhascos, rectas, pelicanos, grandes espaços verdes, cangurus, parques naturais, surfistas, lagoas, coalas, arco-íris, capuccinos, geomorfologia, dunas, por-do-sol, merinos, baías, veleiros, lamas, faróis, maduro tinto, sol, de novo a grande cidade, esplanadas, museus, bistrôs, pinguins, estrada, cruise control, pies, Blue Mountains, Sidney, a ópera, as docas, as lojas, as galerias, os mercados de rua, as emoções das alturas, o regresso.

Se existe povo mais genuinamente simpático e prestável do que os Australianos eu desconheço. Se algum dia tiver que sair de Portugal é para aqui que venho viver.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Singapura em imagens

Num primeiro olhar pelas ruas, tudo parece diferente:





Mas, procurando com atenção, um tipo consegue sentir-se em casa, ... para o bem:


e para o mal:


Nada que uma boa refeição:

e um momento de reflexão, acompanhado de um bom maduro tinto, não resolvam:


Felizmente, há LEÕES por todo o lado:


Mas é preciso ter cuidado, porque vacas também as há:


Enfim, gente estranha:



que se junta para a partilha da micose:

Para terminar. Mostro-vos o mais famoso hotel de Singapura, visto de cima:


e visto EM cima:

E siga para o aeroporto:


que a Austrália espera-nos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O programa segue dentro de momentos ...

Singapura. Jetleg. Um sem numero de fusos horarios atravessados. Teclado sem acentos nem cedilhas. Humidade de 453%.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Deu para matar saudades.

Bem sei que isto em nada contribui para o desenvolvimento da humanidade, mas não poderia deixar de assinalar o facto de hoje, ao fim de 20 dias parado, ter regressado à lides, ainda que de forma muito modesta.

Foram só 40 minutinhos a 5:20, e à pior hora possível: 12:30h.


domingo, 4 de julho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um diálogo não é um monólogo

Amizades antigas, vidas diferentes, geografias distintas, o contacto que se perde ou se espaça e que se retoma por um acaso, uma saudade que bate mais forte ou a necessidade de um desabafo e lá se faz o telefonema para um almoço ou uns copos com um daqueles amigos.

Este filme, já visto e revisitado por todos nós, assumiu comigo recentemente contornos bem mais interessantes quando o tal amigo é também um corredor amador. Em vez do almoço e do copo (que também podem fazer parte do menu, em função do tempo disponível), marca-se um treino e rola-se a um ritmo, necessariamente baixo, que permita manter um diálogo não ofegante e fazer o tal F5.

Para além de todas as vantagens que saltam à vista acresce o facto de que o “desabafador” mais tarde ou mais cedo vai precisar de recuperar o fôlego, o que não lhe permite manipular a conversa e enfadar demasiado a prosa.

sábado, 5 de junho de 2010

Desporto em Portugal? Pois, pois

Entramos no restaurante e, na televisão, em surdina, as imagens de um autocarro em movimento, precedido de diversas motas da polícia e mais viaturas da autoridade a fechar o cortejo. Tudo presumidamente filmado, em directo, a partir de um helicóptero.

De vez em quando a reportagem saltava para o estúdio e percebia-se que um paineleiro comentava (supus tratar-se de um especialista em transportes de passageiros).

De tempos a tempos lá espreitava a muda tv e confirmava que o enigmático autocarro continuava em movimento.

Jantamos, saímos, e o autocarro lá continuava a sua misteriosa marcha.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Limite? Qual limite?

Vem estas linhas a propósito de um recente debate que espontaneamente tem vindo a ocupar lugar nos meus treinos conjuntos de fim-de-semana (sim, porque nós os que rolamos a 5:40 aproveitamos a corrida para pôr a conversa em dia), e que a pretexto dos recentes 101km de Ponferrata onde participaram duas mãos cheias de amigos e conhecidos, e dos muito próximos 89km da Comrades onde participarão 5 bravos PortoRunners, se estabeleceu em definitivo: as ultras e os ultras.

O assunto tem vindo amiúde à baila, sendo que do aplauso à crítica, passando pela indiferença, ouve-se de tudo um pouco. Se aos indiferentes lhes reservo iguais sentimentos e aos que aplaudem me junto para engrossar o pelotão, cumpre-me rebater os argumentos dos críticos.

Não sendo indiferente aos múltiplos relatos, lidos ou ouvidos de viva voz, relativos aos mais variados sofrimentos que vão desde as simples cãibras e dores musculares até desmaios, desidratações, perdas de visão, enfim é melhor parar por aqui porque já estou a fornecer demasiados argumentos ao inimigo. Não sendo indiferente a essas realidades, dizia eu, a verdade é que tudo se resume a uma questão de escala; senão vejamos: actualmente, lesionado e com falta de tempo, faço um treino por semana, sendo que no mês passado fiz uma maratona, tendo o meu plano de treinos consistido em rolar de longe a longe a 5:30-5:40. Já este mês, ainda lesionado, fiz um treino de 27kms e uma meia-maratona na areia.

Porque é que me apelidam de herói, ao contrário do que fazem aos meus amigos ultra-maratonistas, que cumprem rigorosos planos de treino e fazem uma vida regrada, com alimentação e descanso cuidados? Bom, fico-me por aqui; já me estou a esticar demais. Deve ser dos taninos, mas estas tripinhas estavam mesmo a pedi-las.

Quanto à tal de areia, posso dizer-vos que foi um fim-de-semana magnífico, mas poupo-vos a pormenores que para além de chegarem a destempo já estão mais que relatados um pouco por toda a luso-blogolândia corredora.


Na véspera, com os amigos Joaquim, Mark, Vitor, Rui e Fernando.

A embaixada nortenha, já representada na foto anterior, onde apenas faltava o Francisco, que se tinha colocado atrás da câmara.

Os CyberRunners antes da partida.

A prova.

O que fica.

terça-feira, 4 de maio de 2010

da Comrades à cafeína

Do plano de treinos para Ultra-Maratona Comrades, que 5 bravos Porto Runners irão levar a cabo este mês na África do Sul, faziam parte 8 maratonas, sendo que a última deveria ter lugar no passado fim-de-semana.

Não havendo nenhuma no calendário, decidiram-se por organizar a “1ª Maratona no Parque”.


Para tal mediram o perímetro do Parque da Cidade do Porto e concluíram que 10 voltas chegariam e sobrariam para cumprir tal distância.

Anunciaram que partiriam às 8:10 da matina, convidando quem quisesse para lhes fazer companhia numa ou mais voltas.

A iniciativa teve um sucesso ímpar, tendo tido fases com cerca de meia centena de participantes, onde para além de muitos atletas de pelotão participaram também nomes consagrados do atletismo como Rosa Mota e Paulo Catarino.

No que à minha participação diz respeito, desloquei-me tarde ao Parque e as 3 voltas previstas acabaram por duplicar, tendo feito as 6 últimas, num total de 27km, acompanhando assim até à linha final uma dúzia de resistentes.

Um excelente treino que espero seja um embrião para algo mais. Já vai sendo tempo do Porto Runners tomar uma prova como sua.

Entretanto, ontem à meia-noite esperei que o site da Maratona de Londres se transformasse em abóbora e mandei para lá a medida do meu pé, a ver se encaixa no sapatinho.

Agora é esperar por Outubro e fazer muitas figas.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Solidão no meio de 40.000

Há milagres. Qualquer bípede pode concluir uma maratona.

Noite mal dormida. Despertar às 6:00.

Pequeno-almoço com o Mark e partida para o Arco do Triunfo.

Luís Mota de grilo. Fomos aos sacos.

Stress. Frio. Vai doer? Vou aguentar?

Último abraço. Eu: “ – vai forte!”; ele: “ – vai com calma”. Nenhum de nós proferiu as palavras ao acaso. Ao Mark, com um registo de 3:00:02, faltavam-lhe uns segundos para entrar na hora dois; eu, com treinos morrinhentos e uma lesão a atormentar-me, só queria terminar e, de preferência, abaixo das quatro horas. Se não vos apetecer ler mais adianto-vos já que ambos conseguimos, à tangente, os nossos intuitos.

Emoção contida.

Poupo-vos àquilo que todos vocês conhecem: o frio, a solidão, o nervosismo, a dúvida e, pela primeira vez numa situação deste tipo, a vida extra-atletismo a passar-me insistentemente pela cabeça, a estacionar na minha cabeça.

O tiro. Nada acontece.

Uns passos. O chão repleto de lixo.

Que faço eu aqui?

Mais uns passos.

8 minutos passados e lá está a linha de partida.

Começo a correr. Uma perna à frente da outra. Não me consigo decidir por um ritmo. Vou muito rápido. Agora muito lento. Que faço eu aqui?

Passa o primeiro quilómetro: 5:18. Não consigo decidir se é lento ou rápido. Deixo-me ir na corrente. Segundo quilómetro a 5:20. Vejo uma bandeira nacional e grito Portugal! “ – Força Meixedo!”. Era a Susan, esposa do Luís Mota.

Lá vou indo entre os 5:00 e os 5:10, até que no quilómetro 9 não aguento mais e tenho que procurar um local discreto para mudar a água às azeitonas. Arranco e esse quilómetro bate a 5:30. Decido recuperar o tempo perdido, mas não chego a fazer 200 metros sem que sinta uma forte picada no tendão, e a perna a prender. Grito um palavrão com todas as forças que tenho. Lágrimas.

Que faço eu aqui?

Páro. Lágrimas.

Arranco lentamente e esse quilometro ainda bate a 4:40. Nem imagino a que ritmo ia quando senti a picada.

Dói mas aguento. Aguento até ao final dos 43.240metros, porque ela nunca mais me abandona.

Estabilizo e entre os km 10 e 26 rolo entre os 5:05 e os 5:10. Sofro mas estou satisfeito.

Por volta do quilómetro 27 sinto repentinamente que as pernas têm vontade própria e que correr não está nos seus planos.

É uma situação nova, para mim, que sempre parei ou abrandei por falta de fôlego, seja lá isso o que for. Desta vez não é o pulmão. Não é o coração. Não me sinto esgotado, mas as pernas não correspondem.

Nos 10 quilómetros seguintes vejo-me aflito para rolar abaixo dos 5:40 e chego mesmo a registar dois quilómetros acima dos 5:50.

QUE FAÇO EU AQUI?!

A partir do quilómetro 37 consigo impor-me às minhas pernas e rolei sempre em torno dos 5:25.

O meu habitual sprint final limitou-se a uns meros 200m, tendo terminado com 3:50:27.

Para meu desespero fiz 43240m, a um ritmo médio de 5:19. Com esse ritmo, em 42195m deveria ter registado um tempo de 3h44min. Mas isso é o condicional e como todos sabemos, se a minha vizinha de baixo tivesse rodas seria um camião TIR.

Terminei, mas com o meu pior tempo de sempre. Sem treino não há milagres. Continuo ateu.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Objectivo …

… ora bem, objectivo …, objectivo …?

Chegar ao fim? Talvez.

Entre a preparação e poupar a lesão, optei pela segunda.

Há quinze dias fiz o suposto treino de 3 horas (que nem lá chegou) e andei dois dias a mancar. Literalmente a arrastar a perna.

Ontem corri meia horita e sentia as pernas pesadas (e a pança também, aleluia, aleluia…), mas há dois dias que não me dói o tendão.

Espero andar a 5:40, nunca baixando dos 5:30, mesmo que não tenha dores. Se tudo correr bem deve dar para passar a meia entre 1h55min e as 2:00h e terminar a bater nas 4:00h, mas de preferência sem as passar.

Se miraculosamente nada me doer e sentir força, logo se vê, mas nunca apertarei antes dos 30km, que é a tal de barreira que me dá gozo superar.

De qualquer das formas, o maraturismo já ninguém mo tira, a menos que caia o avião.

Fica aqui uma actualização do meu milagroso – ou desastroso, a ver vamos – programa de treinos:


Aqui fica também a lista dos maduros-tinto que me foram acompanhando os almoços e jantares desde o dia zero, para que quem queira seguir este plano milagroso o possa fazer de forma absolutamente rigorosa:

Kopke (Douro), Pegões (Península de Setúbal), Chaminé 2005 (Alentejo), Vinha do Meio Queijo 2007 (Douro), Cadão-reserva (Douro), Quinta da Póvoa-espumante (Bairrada), Borba (Alentejo), Serras de Azeitão (Península de Setúbal), Mouras de Arraiolos - Cabernet Sauvignon 2007 (Alentejo), Duorum 2007 (Douro), Encosta de Sabrosa 2004 (Douro), Castello d'Alba Reserva 2007 (Douro), Montes Ermos 2008 (Douro), Quinta do Grifo reserva 2004 (Douro), Duas Quintas 2007 (Douro), Herdade dos Templários 2005 (Ribatejo), Quinta do Côtto 2005 (Douro).

domingo, 4 de abril de 2010

Aleluia, aleluia …

… uma Maratona no Algarve.

De facto, era incompreensível que num país tão pequeno e com apenas 4 maratonas (há uma em Porto Santo, que passa algo despercebida), duas delas (50%!) se realizassem na mesma cidade. O desfecho da Maratona Carlos Lopes era não só esperado, como desejado.

Todos os que de forma mais ou menos intensa, de forma amadora ou profissional, temos alguma ligação ao atletismo, por mais ténue que ela seja, clamávamos por uma Maratona no Algarve, onde existem óptimas condições climatéricas, voos low cost, e uma importante comunidade residente de estrangeiros comedores de massa oriundos de países com tradições maratonistas.

Finalmente parece que ela, a tal Maratona do Algarve, vai ver a luz do dia, mas desenganem-se os amadores que como eu precisam de um intervalo considerável para recuperação entre maratonas, porque com 12 meses no ano e com as Maratonas do Porto e de Lisboa espaçadas apenas de um mês, a inefável xistarca resolveu colar-lhes também a do Algarve, de modo que no espaço de 2 meses ficam as 3 arrumadas. Brilhante!

sábado, 20 de março de 2010

Tá ali, pá, em baixo do lado direito



(o post lá de baixo continua com actualização permanente)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Séries?!!

O Dr. House, o American Dad ou o Family Guy é do que a malta gosta, cá em casa.

Já sei, já sei, e como dizia um amigo meu: “pôrra, pá, pareces uma gaja, sempre a queixares-te!”

Bom, cá vai mais uma história, sem moral no fim, já vou avisando.

30 minutos de aquecimento a um ritmo muito lento, uns alongamentos mais para aproveitar o descanso do que por outro motivo mais nobre e eis que me preparo para, a contragosto, fazer umas rectazitas de 200m. Sai-me a primeira a 3:00min/km; rolo lentamente durante outros 200m e atiro-me com mais calma para a segunda e faço-a a um ritmo de 3:14; repito o descanso e a terceira já me sai a 3:17. Decido que faço apenas mais uma e paro. Nem sei que ritmo deu, mas sei que demorou para aí uns 10minutos, que foi o tempo que demorei a chegar mancando ao carro depois de o tendão ter cedido a meio da última série!

A maratona a 25 dias e eu sem saber quando consigo voltar a treinar. Isto já para nem falar do treino de 3horas que tinha agendado para domingo.

Ficam, pois, desde já todos autorizados a dar-me uma tareia se algum dia me virem a fazer séries.


Desloque o cursor para cima da imagem e pressione o botão esquerdo do rato (ou, utilizando novilingua "quelique na image"), para descontrair.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O tal miraculoso e não menos famoso programa de treinos do Meixedo, ou como fazer uma Maratona treinando apenas 5 semanas. *




Entretanto vou acrescentando a lista dos maduros-tinto que me vão acompanhando os almoços e jantares desde o dia zero, para que quem queira seguir este plano milagroso o possa fazer de forma absolutamente rigorosa:

Kopke (Douro), Pegões (Península de Setúbal), Chaminé 2005 (Alentejo), Vinha do Meio Queijo 2007 (Douro), Cadão-reserva (Douro), Quinta da Póvoa-espumante (Bairrada), Borba (Alentejo), Serras de Azeitão (Península de Setúbal), Mouras de Arraiolos - Cabernet Sauvignon 2007 (Alentejo), Duorum 2007 (Douro), Encosta de Sabrosa 2004 (Douro), Castello d'Alba Reserva 2007 (Douro), Montes Ermos 2008 (Douro), Quinta do Grifo reserva 2004 (Douro), Duas Quintas 2007 (Douro), Herdade dos Templários 2005 (Ribatejo), Quinta do Côtto 2005 (Douro).

* posta em permanente actualização, pelo menos no que ao maduro tinto diz respeito. De notar que repito muitos dos vinhos, pelo que a falta de actualização não significa abstinência.

domingo, 7 de março de 2010

Maratona de Paris – dia zero

Poupo-vos a mais lamentos sobre como a falta de tempo, as lesões e os tendões, as gripes e as constipações me fizeram reconsiderar Paris; até que um amigo pôs hoje termo aos meus carpidos.

Pois é, diz o povo na sua imensa ignorância que eles são para as ocasiões e foi o que aconteceu: o Vitor apareceu-me hoje à porta de casa com um ultimato e lá fui eu, 14 dias depois do último treino, arrastar-me durante mais de hora e meia ao longo do magnífico Douro.

Bom, uma vez que estamos a exactamente 5 semanas da Maratona, já não vale a pena tentar qualquer programa de treinos, pelo que vou fazer o contrário: treinar quando e como puder, anotando tudo. Se no dia 11 do próximo mês conseguir concluir a Maratona, passo-vos o miraculoso e não menos famoso programa de treinos do Meixedo, ou como fazer uma Maratona treinando apenas 5 semanas.

Amanhã acordo às 7:00 e chego a casa pelas 23:30, mas na terça a ver vamos se arranjo um buraco no horário para treinar.

Obrigado, Vitor.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Boas notícias


A minha narina esquerda está desentupida.


Mais um mês finda e só treinei 5 vezes.

70 míseros quilómetros, contra os 200 que constituíram a média mensal em 2009.

Tendo em conta que no mês passado apenas treinei 120km, não há dúvida de que a minha ida a Paris vai ser em grande. Com o hotel e as viagens já pagos, no mínimo vão vão ser umas belas mini-férias.